29.4.12

Bacar Banora (Yachine)
Bacar Banora
João Carlos Freitas de Barros
Os teus olhos - Ismael Hipólito Djata
Ismael Djata
Kudadur - Óleo s/tela, 100x100 - Ismael Hipólito Djata
Ismael Djata
Oquiniame
Oquiniame
Carbar

Lição n.º 77

Visionamento e comentário de documentos sobre o autor Hélder Proença.
 Leitura metódica de poemas de Não posso adiar a Palavra.

26.4.12

Tópicos, Temas, Palavras-Chave



Poesia-pátria-flor, 
chuva-esperança, 
mulher sensual,
voz e canto/colectivo e luta,
exortação-incitamento,
horizonte- vitória, 
solidariedade,
amor, 
vida, 
pátria






http://4.bp.blogspot.com/_HFAo9aLWHsE/SilPivumvCI/AAAAAAAAUis/a-OeYepC7Js/s200/bissau.jpg

Lição n.º 76

Helder Proença: perfil biográfico e literário.








Nota:

Assassinato

5 de Junho de 2009

A morte de Proença foi anunciada pelo Ministro da Defesa guineense, horas depois do anúncio do assassinato por tropas oficiais do candidato a presidente Baciro Dabó. Segundo a versão oficial, Proença seria o protagonista dum golpe de estado e morrera no seu carro, junto do motorista e de um segurança, após troca de tiros com os soldados que iam prendê-lo. Já antes a imprensa mundial anunciara rumores de que o poeta também havia sido morto.( «Público»)

22.4.12

LITERATURA DA GUINÉ-BISSAU

Fonte:
lusofonia.com.sapo.pt/guine.htm


Índice




VIDA E OBRA
Escritor da Guiné–Bissau, envolveu–se, nos anos 70, no movimento independentista do seu país, abandonando os estudos liceais e partindo para a guerrilha em 1973. Após o 25 de Abril, regressou a Bissau, prosseguindo os seus estudos.
Foi responsável-adjunto pelo sector de educação na região de Bolama e professor de história. Frequentou, em 1979 e 1980, um curso de Planificação Regional no Rio de Janeiro. De regresso à Guiné, trabalhou como quadro no ministério da cultura, sendo ainda deputado na Assembleia Nacional Popular e membro do Comité Central do PAIGC.
Tem colaboração nas publicações Raízes (cabo-verdiana), África (portuguesa), Libertação e O Militante, estas duas ligadas ao PAIGC.
Hélder Proença começou por se dedicar à literatura era ainda adolescente, escrevendo poemas anticolonialistas, de afirmação da identidade nacional, que acompanharam a sua actividade política. Os textos desta fase foram reunidos no volume Não Posso Adiar a Palavra, editado apenas em 1982. Este carácter panfletário foi-se atenuando progressivamente, embora o autor nunca tenha descurado uma vertente de intervenção política e social. Considerado uma das grandes figuras da nova literatura guineense, escrevendo tanto em português como em crioulo, foi o co-organizador e prefaciador da primeira antologia poética do seu país Mantenhas Para Quem Luta! (1977). Alguma da sua produção continua inédita.
http://web.educom.pt/p-ccomum/2/biblioteca/biografias/guine.htm

De entre os poetas revelados nas primeiras antologias referidas, poucos prosseguiram o ofício, com poesia dispersa. Hélder Proença é um deles, publicando, em 1982, Não posso adiar a palavra, revelando-se, então com 26 anos, um poeta «amadurecido» pelo tempo e pela visão desapaixonada do momento. Sem se desvincular da enunciação ideológica (alguns poemas já haviam sido publicados), a sua poesia já evidencia, de maneira sugestiva, o labor consciente que se manifesta nos níveis formalizantes da mensagem literária: a concertação tecida da matéria sonora, das imagens e da rítmica e até da utilização gráfica da página. Nessa performance técnico-formal, o tecido social e ideológico engendra uma linguagem simbólica, transfigurada do real, mas ainda vinculadamente radicada nele. Mas até os temas se diversificam: além da celebração da pátria e dos heróis, o sentimento pátrio harmoniza-se com o amoroso e até o erótico e o sujeito é, então, simultaneamente aquele que pensa e sente, ama e odeia, ri e chora. É a catarse dos lugares comuns e o triunfo do homem pleno que se deixa envolver pelo fascínio da volúpia e se verticaliza na reivindicação de uma pátria de cidadãos individualizados.
O próprio macrotexto convida-nos a essa procura de discursos paralelos. Divide--se em três partes: «As trincheiras também cantam, amor», «Entre mim e o canto, a poesia» e «Vem, Pátria, nesta proposta do amanhecer». E o último poema é também um manifesto: «Juramento». 
(Inocência Mata, “A Literatura da Guiné-Bissau” in Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Pires Laranjeira, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, p.362)



 

HÉLDER PROENÇA
   NÃO POSSO ADIAR A PALAVRA
Col. Vozes do Mundo
      Sá da Costa Editora, Lisboa / 1982

 RECENSÃO CRÍTICA
Os especialistas de poesia africana de expressão lusófona têm em alta estima os escritos de Hélder Proença, vendo nele o promotor por excelência da literatura da Guiné-Bissau. Interpretação problemática, visto que, segundo Manuel Ferreira, essa literatura se caracteriza sobretudo pela sua quase-inexistência e pela dispersão extrema dos contos ou provérbios que a constituem.
A publicação desta colectânea dá seguimento a textos publicados em 1977 em Mantenhas para Quem Luta! (A Nova Poesia da Guiné-Bissau) e desenvolve os seus temas primaciais. A palavra-chave é, naturalmente, o termo povo, cujo significado de denotação abrange todas as vítimas da opressão estrangeira, mas cuja carga conotativa é muito mais ampla. Nela se integram todos os valores morais individuais: esperança irrecusável em “um amanhecer diferente” (p. 16); certeza de promover uma pátria do humano, modelo ideal de toda e qualquer comunidade humana: “Nós avançamos no lamaçal quente da história / mas firmemente nos nossos passos.” (p. 17); crença na positividade do ardor revolucionário: “Nós somos / aqueles que dia e noite / fazem com suas mãos / os alicerces da vida” (p. 20); e isso permite “olhar com confiança / o amanhã que hoje construímos” (p. 31), em pugnacidade contra todas as formas da exploração humana: “porque o povo jamais dormiu no silêncio!” (p. 35).
Ante esta poesia, porém, situamo-nos nos antípodas duma visão idealista e moralística do povo, como a que é perfilhada, por exemplo, por Michelet. É evidente que, para o autor, a ideia de povo se identifica, como em natural osmose, com o PAIGC. Um poema é a este dirigido como homenagem e Amílcar Cabral é lembrado como ponto de mira duma poesia cantada, duma poesia-acção, destinada a alimentar o entusiasmo popular e a cobri-lo de glória (p. 86). O Partido é o indispensável catalisador que converte em actos as virtudes inerentes às massas. Sem ele nenhuma progressão seria possível — e daí a ansiedade (p. 68) que toma o militante na expectativa duma decisão importante dos dirigentes.
Em tal situação, o artista não pode fazer mais do que dedicar-se de corpo e alma à causa do povo (ou do Partido). Galvanizar as energias, mobilizá-las na luta contra o invasor, incitar os camponeses-guerrilheiros à firmeza com a esperança num «amanhecer diferente» — esses são os temas dominantes dos versos, que no entanto não se confundem com o discurso da propaganda revolucionária. Não são formuladas palavras de ordem para o dia a dia, não se denuncia ninguém à vindicta popular. E a visão é, de facto, muito mais ampla do que isso. Traz a marca duma metafísica popular que desvenda a “harmonia maravilhosa / da morte e nascimento” (p. 54) e, através dela, a contribuição da degenerescência física para a regeneração das forças naturais. Essa ideia relaciona-se, aliás, com o ideal revolucionário, para o qual a morte individual contribui para preparar a vitória final: “prontos a morrer hoje / para ressuscitar amanhã / no festim do povo.” (p. 31). O combatente, com a consciência da sua pequenez pessoal, ignora o sentimento da morte desde o momento em que pensa em si mesmo como um do da cadeia revolucionaria (ver L’Espoir de Malraux).
Esta poesia, que assim reforça o discurso dos combatentes, desenvolvendo ao máximo o seu aspecto ético e humanitário, não é nova para o leitor ocidental. Éluard, Aragon, também sentiram a urgência de pôr os seus dotes de escritores ao serviço de um empenhamento político e ideológico, quando de situações em que os homens confrontavam os seus pontos de vista mesmo na tortura e nos massacres. Assim se forjou a apologia incondicional dos Partidos Comunistas francês ou soviético por Aragon (La Diane Française, Hourrah I’Oural).
A opção por um campo ideológico, nestes poetas franceses, foi a condição que tornou possível a ressurreição de um género épico que havia sido posto de parte desde Victor Hugo. O mesmo não se pode dizer de Hélder Proença, para quem o alistamento pessoal sob a bandeira do PAIGC motivou versos de evidenciada sensaboria, como estes: “Ter confiança no Partido / é desbravar o mato de injustiça, abusos e humilhações / é aproximar a madrugada que além aponta / é ter em nós a certeza na vitória!” (p. 31). A palavra de ordem política nunca pôde tomar o lugar da inovação poética.
Mas também quando Proença põe de lado o desígnio de propaganda para nos fazer compartilhar o seu sentimento amoroso incorre por vezes numa puerilidade exemplar: “Quando teu olhar / se afoga / na sensibilidade do meu sorriso / e palavras enlutadas de rosas / se congelam / no divórcio das nossas línguas / descubro no Himalaia do teu corpo / o crepúsculo incomunicável do inverno Moscovita.” (p. 42). Estamos aqui muito longe dos achados de linguagem de Aragon quando canta a sua devoção a Elsa ou de Paul Éluard ao escrever sobre a morte de sua mulher Nush: “Mon amour si léger prend le poids d’un supplice”.
Poderá objectar-se que Proença perfilha uma visão universalizante dos acontecimentos e por aí ultrapassa os limites histórico-geográficos da causa que defende: a luta pela libertação travada na Guiné-Bissau toma o valor de exemplo ao realizar-se na ordem e no respeito sacrossanto pela liberdade. Inscreve-se desse modo num passado imemorial de lutas contra as dominações estrangeiras. A “Ode a Abomey” (p. 47), que é sem dúvida um dos melhores momentos do livro, presta homenagem ao rei do Daomé, Behanzin, pela sua “rebelião” e a sua “insubmissão”, com a crença num “maravilhoso paraíso onde impera / a liberdade, o trabalho e a felicidade!” (p. 24). Decerto que o tempo do combate é o da euforia sem nuvens; mas ninguém ignora que, passado esse tempo, a reconstrução do país levanta dolorosos problemas e que a alegria popular dá lugar às desilusões ante aquilo mesmo que era objecto duma sacralização generalizada.
Este texto terá de ser lido, consequentemente, sob a perspectiva da circunstância histórica que lhe determinou os temas e os destinatários. Fora dela, perde muito do seu poder de galvanizar multidões. Mas bastará o seu testemunho para lhe assegurar valor literário autêntico? 
Pierrete e Gérard Chalendar [Tradução de A. Salema] in Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 75, Set. 1983, p. 106-107.

   HÉLDER PROENÇA
   NÃO POSSO ADIAR A PALAVRA

        ANTOLOGIA POÉTICA

Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos

negras como breu o silêncio da resposta

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nómada e igual
coagulava em todos os cárceres
            em toda a terra
            e em todos os homens

Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a «Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra»

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais
            as amaldiçoavam cada existência nossa

Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada
            no extenso breu de canto e morte

Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!

 

Nas noites de N’djimpol
vi a virtude dos homens sem amanhã...
légua a légua
conquistando o caudal do futuro.

Vi-os nas ondas tenebrosas
enfrentando e conquistando!

Vi braços robustos e livres
sonho campos loiros
espigas dardejando ao sabor do vento
brisas e pássaros cantando
sol e flautas beijando o suor fecundante.

Nas noites de N’djimpol
Vi a virtude dos homens sem amanhã...
légua a légua
conquistando o caudal do futuro...

Vi-os nas ondas tenebrosas
enfrentando e conquistando

Sim,
Vi nas noites de N’djimpol
sonho mamãe terra
sonho compassos rítmicos no capinzal
dilatando a fé do homem-terra
o horizonte e o brilho das nossas mãos.

Oiço o grito das brisas loiras...
na imensidão farta dos campos
sim mamãe terra
firmemente sonho
na certeza gritante
de sermos loiros e fortes
            como espigas e o sol
fortes e loiros…
Mamãe terra
Sonho mas juramos-te!

 
«L ‘univers tient en oeuf que la terra desire.»
BÉHANZIN, 1858-1889.
 
Há 240 anos
vi no horoscópio
[2] da história
Abomey em prontos
vi-te de pé, Abomey
na sucessão vertiginiosa
de nove reinados

Vi também
na mesma altura
a caravela, a cruz
as quinquilharias
e Cristo eras tu!
Tu que pela graça do Espírito Santo
recebias homens em correntes imobilizados
            Aqui foi Ouidah
[3]
Onde mercadorias humanas
redimiam-se sob «negras bandeiras da fome» e sangue.

Capitão Ambrósio
[4]
aqui foi Abomey
há 190 anos
estes homens estendidos em longas proas
também foram
o Harlém
[5] santificado pela bandeira das quinas
Aqui foi Abomey e Ouidah, capitão Ambrósio
e tu bandeira de armilar esfera – a civilização.

O ceptro à Agadja
[6]
a porcelana Zinli
[7] em tam-tam fúnebre
junto a Glélé
[8] e suas donzelas eternas
            ainda repousam
a branca bandeira da hipocrisia
            à paternidade dos Panteras[9]
Tudo que em Cristo e por Cristo deixastes
            testemunham ainda a tua LusoCristo-picalidade
O manto real em púrpura
12 canhões para 24 cabeças, também e aleluia!

Vi órfãos e viúvas eternas
no horoscópio da história
enquanto o pecado se expiava no Harlém
Capitão Ambrósio!

Assim
sustido pela ferocidade da selva
e pelo Tigre totem
evoquei em prantos teu nome Segobolissa
e disse gritando em direcção ao Níger
qu’estas almas donzelas
p’lo alcolusófono voluntariadas
para de pé se cobrirem de terra
junto a ti Glélé na eternidade
            em paz repousem

E
foi assim
que a noventa anos passados
sobre este túmulo
que nosso silêncio hoje ameaça
em lágrimas,
Vi-te Béhanziri
coberto de rebeldia e insubmissão
E sobre
tua irreverência opulenta
fiz ecoar hinos em marfim
gravados
e sobre mármore
selados
Para te reencontrar
na largura indimensional
da nossa civilização.
 
«Pour le Danhomé j’ai sacrifié la vie de milliers de guerriers; je me suis réduit moi-même à l’état de fugitif sans fétiches favorables, sans mulettes protectrices.», BÉHANZIN

[1] Os palácios reais do Abomey são um grupo de estruturas construídas de barro pelos povos Fon entre meados do século XVII e finais do século XIX. A cidade era circundada por uma muralha de lama com uma circunferência estimada em seis milhas, atravessada por seis portões, e protegida por uma vala de 1,5 m de profundidade, preenchida com uma sebe densa de acácia espinhosa, a defesa usual das fortalezas africanas ocidentais. Dentro das paredes, estavam as vilas separadas por campos, por diversos palácios reais, por uma praça de mercado e por um campo grande que continha as choças. Em novembro de 1892, Behanzin, último rei independente do Daomé, sendo derrotado por forças coloniais francesas, ateou fogo a Abomey e fugiu para o norte. Os palácios reais de Abomey são a única lembrança deste reino desaparecido.
[2] Horóscopo: predição da sorte; destino; futuro de uma pessoa ou coisa.
[3] Ouidah, Hweda, Ouidá, Uidá, Ajudá é uma cidade localizada na costa ocidental africana, actual República de Benim – o território onde o Benim se localiza era ocupado no período pré-colonial por pequenas monarquias tribais, das quais a mais poderosa foi a do reinado Fon de Daomé. A partir do século XVII, os portugueses estabelecem entrepostos no litoral, conhecido então como Costa dos Escravos. Os negros capturados são vendidos no Brasil e no Caribe. No século XIX, a França, em campanha para abolir o comércio de escravos, entra em guerra com reinos locais. Em 1892, o reinado Fon é subjugado e o país torna-se protectorado francês, com o nome de Daomé. Em 1904 integra-se à África Ocidental Francesa. O domínio colonial encerra-se em 1960, quando Daomé torna-se independente, tendo Hubert Maga como primeiro presidente. A partir de 1963, o país mergulha na instabilidade política,com seis sucessivos golpes militares.
[4] Certos levantamentos populares, como o de 1934, em São Vicente (Cabo Verde), contra a fome e consequente falta de trabalho marcaram os escritores caboverdianos. Gabriel Mariano viria a imortalizar esta revolta no poema «Capitão Ambrósio», como também Manuel Ferreira em Hora di Bai.
[5] Harlem é um bairro de Manhattan na cidade de Nova Iorque, conhecido por ser um grande centro cultural e comercial dos afro-americanos.
[6] Agadjá, 1708-1732, um dos reis do Daomé.
[7] Peça redonda da cerâmica, utilizada para fornecer o ritmo zinli, música tocada pelos antepassados que vieram de tado, uma aldeia mahi, onde nasceu o Gota que é tocado principalmente nas cerimónias em homenagem aos voduns, funerais e para acalmar os espíritos dos mortos; também serve para afastar as aflições, moléstias e ofensas.
[8] Glelé, 1856-1889, um dos reis do Daomé.
[9] Partido negro revolucionário estadunidense, fundado em 1966 em Oakland - Califórnia, por Huey Newton e Bobby Seale, originalmente chamado Partido Pantera Negra para Auto-defesa. A finalidade original do partido era patrulhar guetos negros para proteger os residentes dos actos de brutalidade da polícia. Os Panteras tornaram-se eventualmente um grupo revolucionário marxista que defendia o armamento de todos os negros, a isenção dos negros no pagamento de impostos e de todas as sanções da chamada "América Branca", a libertação de todos os negros da cadeia, e o pagamento de compensação aos negros por séculos de exploração branca. Sua ala mais radical defendia a luta armada. Em seu pico, nos anos de 1960, o número de membros dos Panteras Negras excedeu 2 mil e a organização coordenou sedes nas principais cidades. Os conflitos entre os Panteras Negras e a polícia nos anos de 60 e nos anos de 70 conduziram a vários tiroteios na Califórnia, em Nova Iorque e em Chicago, um desses resultando na prisão de Huey Newton pelo assassinato de um policial. Na medida que alguns membros do partido eram culpados de actos criminais, o grupo foi sujeitado a uma grande hostilização da polícia que algumas vezes se deu na forma de ataques violentos, despertando investigações no Congresso sobre as actividades da polícia com relação aos Panteras. Nos meados dos anos de 70, tendo perdido muitos de seus membros e diminuído a simpatia de muitos líderes negros estadunidenses, levaram a uma mudança dos métodos do partido, que mudaram da violência para uma concentração na política convencional e em um fornecimento de serviços sociais nas comunidades negras. O partido estava efectivamente desfeito em meados dos anos de 1980.

Neste desdém...
 vida marcha num vaivém
baloiçando
criando origens desconjunturadas
e tu badjuda n’a
desdenhosamente marchando no «infortúnio da vida»

Na certeza dos teus sonhos
de jardins suspensos
dum engate fixe do fim-de-semana
e de altas curtições
ao gosto de sol-praias
dos convívios-boîte e do jazz-band
excitando a confusão dos lábios, das luzes e do sexo:
            A-A-A-Ahh... baby
O sabor drogante do teu destino badjuda n’a!
mas continua...
sepulta e bem sepultadinho
a dignidade em alcatifas confortáveis
(pelo menos sairá mais confortável, badjuda n’a)
Deixa exalar
não negues os bafos MINE COOPER e VOLVO
não, não negues o exalo suave da prostituição clássica:
O vestidinho te ajustará melhor, badjuda n’a!
As calças apertadinhas
chamarão mais clientes
(e as fendas ficarão mais nítidas badjuda n’a)
Terás uma Corte distinta
Que magistral personalidade!
E tuas pestanas azuis, verdes ou cinzentas
tuas unhas de gato lagária — de luta e violácea
e tua cara, aqui verde acolá azul
que pintura catalogar an! extraordinária badjuda n’a!

Sim
falarás um português melhor — da Metropóle —
e o deserto do teu sonho encherá de flores
então poderás passar seguramente
em todas as artérias góticas da ilusão
que todos te admirarão
e com mais descontracção
subirás, subirás, subirás
até entranhares
crua e sangrenta nas vísceras do anonimato
O jazz e a confusão das luzes te esperam.


[1] Badjuda: menina, moça.

Esta é a noite
do perfume
            sorriso
brotando
            E digo-te
            canta flor
            mas fita sério!
Este luar-guitarra
é longo e suave
e jovem e sorridente
solfeja e dedilha
refina ancas
emacia o beijo e a ternura
            E também
            amo
            neste tom guitarra
            do luar, Sundiata
            E digo-te
            canta flor
            mas fita bem!
Neste luar prata
se atiçam sensibilidades
esqueço-me
            e afirmo-me
Como fumos sorridentes
e prateados
em longas andanças
            E digo-te
            canta flor
            mas fita bem!
            Esta é a noite
            do perfume sorriso
            brotando

Os olhos de ver
morrem na doçura prateada do horizonte
Enamoro a cruel dureza das rochas
Caso-me com o cristal mais negro
e triste do debaixo da 1ª terra

            E também
            sonho
            neste tom guitarra do luar, Sundiata

Neste luar prata
perfilo-me entre os lábios
mais usados
Hasteio como estandarte
o sexo de todos os Deuses,
enfim, e da virgem santíssima, também!

E digo-te
canta flor
mas fita sério
Também
agonizo neste tom guitarra do luar, Sundiata
E digo, Amem!
E digo-te — Sundiata:
«abô i fidjo di miséria
ca bu tchora bu sufrimentu»
Porque há sono de dormir
ainda
no solfejo cristalino
            de cada nuance pequeno-burguês
se assim é...
em cada coisa, em tudo ou
            em cada coisa?!
e digo, que assim seja, Sundiata!

Desenhando
este silêncio interno
esta música permanente
este retrato multifacético do luar e da agonia

Digo-te
não posso adiar a palavra, Sundiata
se pequei contra ti
e porque no
            Amem
e Aleluia subescrevendo
Agora?!
E digo-te, Sundiata
canta flor
mas fita bem
Porque
esta é a noite
do perfume
sorriso
brotando.


[1] Sundiata Keita (ou Sundjata Keita, ou ainda Soundiata Keita) era o Imperador do Mali, nascido em 1190 em Niani (Reino Mandinga, atual Guiné) e faleceu em 1255. Filho de Naré Maghann Konaté (também conhecido Maghan Kon Fatta ou Maghan Keita) e Sogolon Djata (a mulher búfalo). O épico de Sundjata é contado pelos griots, através da tradição oral. A lenda conta a história de Sundiata um pouco diferente do que realmente aconteceu, era mágica, magia e várias outras coisas. A história verdadeira foi realmente apenas uma guerra que ele venceu e virou rei.

Atente no poema “Quando te propus”:
- o sujeito poético mostra a urgência de nada adiarmos das nossas vidas. E se nós não nos adiássemos? O que faríamos? O que diríamos?
- tomando como exemplo as propostas do poema, imagine um amanhecer diferente a nível individual e a nível colectivo.
Nos poemas apresentados, releve:
- uma poesia de amor e/ou identidade de um espaço;
- a definição histórica, cultural, afectiva de um espaço territorial;
- a constatação de uma situação adversa e a exortação à fundação de uma força vital, libertadora, cosmogónica; o futuro ao alcance das mãos;
- a opção estrutural e discursiva em harmonia com as ideias veiculadas.
- …
(adaptado de Interacções, Fátima Azóia e Fátima Santos, Lisboa, Texto Ed., 2007)

Viagem Virtual à Guiné - Bissau

Guiné - Bissau

http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/03/guine-bissau.jpg

No «link»  poderás ver algumas fotografias da Guiné:

http://republica-da-guine-bissau.blogspot.com/

Lição n.º 74

Literatura da Guiné.
Reconhecimento do território e de aspectos sócioculturais.
Instituto Camões

18.4.12

«corpus» complementar - Literatura Moçambicana





http://3.bp.blogspot.com/_G76NFNcUugU/SHQmrTV7iQI/AAAAAAAAHss/q6yq6A4ZAg0/s320/ILR1L.jpg




 RUI NOGAR
http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/mocambique/img/rui_nogar.jpg



Francisco Rui Moniz Barreto, nasceu em Maputo (ex- Lourenço Marques) em 1932. Militante da Frelimo foi o primeiro secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos. Silêncio Escancarado foi o seu único livro. Faleceu em 1993.



NA ZONA DO INIMIGO,


I
as instruções foram bem precisas
todos nós as compreendemos
camaradas

“permanecer no interior do país
cumprindo tarefas que vos daremos

guardar o santo e senha
que de Dar-es-Salaam vos irá
evelar a cada um
as fronteiras da humilhação
e depois a luta e a conquista
de novas zonas libertadas”

as instruções foram bem precisas
todos nós as compreendemos
camaradas

e aguardaremos ansiosamente
o mensageiro que já tardava



 
XICUEMBO
Eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco

agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer

suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração

e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber

que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor.



RUI KNOPFLI

http://3.bp.blogspot.com/-ngK5cQ5QGwg/TVN3ire320I/AAAAAAAAAC0/E8jTgq0pqNk/s1600/rui-knopfli-g.jpg




Nasceu em Inhambane, Moçambique. Poeta.  Jornalista. Sua estreia deu-se com o livro O País dos Outros (1959). Lançou, com João Pedro Grabato Dias, os cadernos de poesia Caliban (1971-72),  Trabalhou como adido de imprensa, na delegação portuguesa à Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque (1974) onde participa dos trabalhos da Comissão de Descolonização. Publicou Memória Consentida (1982) e em 1984 recebeu o prémio de poesia do PEN Clube.



TESTAMENTO,


Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que não me repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.



Lembrar…
“Um dia eu, que passei metade da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga de um monomotor ligeiro,
e subirei alto, bem alto, até desaparecer para além da última nuvem.
Os jornais dirão: cansado da terra, o poeta fugiu para o céu.
E não voltarei de facto.
Serei lembrado instantes por família, meus amigos,
alguma mulher que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores.
Então meu nome começará aparecendo nas selectas
e, para tédio de mestres e meninos,
far-se-ão edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.”
Ilha dourada

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio
As gentes calam na
voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da "Amizade"
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento



·         O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"


Maxilar Triste 

Suave curva dolorosa
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.

Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza

irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:

espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.


LUÍS CARLOS PATRAQUIM


http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/PublishingImages/Pr%C3%A9mio%20Cam%C3%B5es%202010/Luis-Carlos-Patraquim.jpg



Luís Carlos Patraquim (Maputo, 26 de Março de 1953) é um poeta, autor teatral e jornalista moçambicano.
Refugiado na Suécia em 1973, regressa a Moçambique em 1975, onde vai trabalhar no jornal A Tribuna. Encerrado o jornal, integra o grupo fundador da Agência de Informação de Moçambique (AIM) sob a direcção de Mia Couto.
De 1977 a 1986 trabalha no Instituto Nacional de Cinema de Moçambique (INC) como autor de roteiros e de argumentos e como redactor do jornal cinematográfico Kuxa Kanema.
Em conjunto com Calane da Silva e Gulamo Khan, coordenou, entre 1984 e 1986, a Gazeta de Artes e Letras da revista Tempo.
Reside em Portugal desde 1986.
Colabora na imprensa moçambicana e portuguesa, em roteiros para cinema e escreve para teatro.
É coordenador redactorial da revista Lusografias


Metamorfose
Ao Poeta José Craveirinha

quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância

sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícino e amendoim

percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS



CANÇÃO

Para a Paula
  
chegarei com as árvores
meu amor ao som do sangue
às catedrais do puro gesto
com o grito e as aves
marítimas dentro das sílabas
ao breve cume da espuma
mãos nas mãos chegarei

chegarei com as espadas
areia verde dó planície
ao tutano meu amor da fome
com os frutos nos teus olhos
amante vento à espera
ao sexo nuclear do mundo
nervo a água chegarei

chegarei nas manhãs suadas
da voz meu amor liberta
à nocturna onda do poema
com as aves dentro do grito
ou só marítimo eco
à raiz exígua dos cristais
morte a morte chegarei

chegarei de pé ao silêncio
que vaza meu amor nos rios
remo a canto deslumbrados
contigo ao princípio chegarei



·        SEBASTIÃO ALBA
O que restava do odre
Tu o bebeste
Dos veios mesmo da terra
Só um rio te contempla
zambeziando
E o mar se perde
Onde navegas
O que restava do odre
E deus
Apascentando a sua
sede
Onde te ris
Torre
E chama



·        COLAGEM
Uma girafa com búzios
ao pescoço
os lábios nos ramos altos
Rilham
E os espinhos macerados
Concedem à savana
O dorso crepuscular
Em que se fecha






·        AL-GHARB
Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras
Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres
Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo
E a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.




Muhipiti 

E onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como máos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. E onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira

de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
E onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
E onde me confunde de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. E onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.




  Luís Bernardo Honwana



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Luís Bernardo Honwana nasceu na cidade de Lourenço Marques (actualmente Maputo) em 1942. Cresceu em Moamba, no interior, onde seu pai trabalhava como intérprete. Aos 17 anos foi para a capital estudar jornalismo. Seu talento foi descoberto por José Craveirinha, famoso poeta moçambicano. Em 1964, Honwana se tornou um militante da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) que tinha como propósito conseguir a libertação de Moçambique de Portugal. Devido às suas actividades políticas, foi preso em 1964 e permaneceu encarcerado por três anos pelas autoridades coloniais. Após a independência, Honwana foi alto funcionário do governo e presidente da Organização Nacional dos Jornalistas de Moçambique. Desempenhou também funções de director do gabinete do Presidente Samora Machel e Secretário de Estado da Cultura.



NÓS MATÁMOS O CÃO-TINHOSO (excerto)

«O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo, aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.
Eu via todos os dias o Cão-Tinhoso a andar pela sombra do muro em volta do pátio da Escola, a ir para o canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. As galinhas nem fugiam, porque ele não se metia com elas, sempre a andar devagar, à procura de uma cama de poeira que não estivesse ocupada.
O Cão-Tinhoso passava o tempo todo a dormir, mas às vezes andava, e então eu gostava de o ver, com os ossos todos à mostra no corpo magro. Eu nunca via o Cão-Tinhoso a correr e nem sei mesmo se ele era capaz disso, porque andava todo a tremer, mesmo sem haver frio, fazendo balanço com a cabeça, como os bois e dando uns passos tão malucos que parecia uma carroça velha.
Houve um dia que ele ficou o tempo todo no portão da Escola a ver os outros cães a brincar no capim do outro lado da estrada, a correr, a correr, e a cheirar debaixo do rabo uns dos outros. Nesse dia o Cão-Tinhoso tremia mais do que nunca, mas foi a única vez que o vi com a cabeça levantada, o rabo direito e longe das pernas e as orelhas espetadas de curiosidade.»





A VELHOTA


Eu juraria que não cheguei a perder o conhecimento embora pouco antes de cair tivesse experimentado aquele estado de embotamento de sensibilidade que, quando nos toma, restringe a nossa capacidade de defesa aos gestos puramente instintivos mas estupidamente lentos, que todos conhecem nos boxeurs «grogues». Acho que ninguém podia avaliar o esforço tremendo que fiz nesses não sei se longos se breves momentos, para conduzir os meus punhos, brutalmente pesados antes de ganharem movimento e incrivelmente flutuantes depois de erguidos. Entretanto, às pancadas que recebia não se aliviava qualquer sensação física porque só lhes percebia o eco diluindo-se lentamente dentro da minha cabeça. Esse maldito eco e só ele é que foi o culpado de eu cair. Ë que atrapalhava-me muito e fazia com que antes de levantar um braço tivesse de pensar com força que tinha que levantar um braço. Caí lentamente, com plena consciência de estar caindo.
Primeiro senti-me quase bem no chão, embora o eco continuasse a encher-me a cabeça. Quando abri os olhos veio o zumbido e senti raiva de mim mesmo por ter caído. O eco atrapalhava-me a vista a tal ponto que não tinha a certeza do que via, mas depois, quando a minha vista deixou de tremer, vi as duas pernas vestidas de escuro, que, nascidas uma de cada lado do meu corpo cresciam longamente para cima, tesas e tensas, convergindo para a placa de metal brilhante do cinto. Por cima delas, lá em cima, perto da lâmpada do tecto, a cara fitava-me, atenta, sorrindo satisfeita. Voltei a fechar os olhos.
 Senti-me a tremer, mas o eco era mais suportável porque deixava de se processar desordenadamente para ser uma espécie de latejar. Só voltei a abrir os olhos quando tive a certeza de que o tipo já se tinha ido embora, farto de provar aos outros que realmente me batera.

 Eu precisava de ir para casa. Acho que já tinha vontade de o fazer antes mesmo de entrar no bar, por isso, o que aconteceu lá dentro não era o que me levava a ter tanta vontade de ir para casa. Não via a velhota e os miúdos, não sei desde quando, porque ultimamente voltava a casa muito tarde e saia muito cedo, mas não tinha bem a certeza de os querer ver mais alguma vez. A velhota era insípida e os miúdos eram chatos e barulhentos, sempre com porcarias para resolver. Claro que isso não era nada que se comparasse àquilo do bar, de há bocado, ou de todos os outros bares, restaurantes, átrios de cinemas ou quaisquer outros lugares no género em que todos me olhavam duma maneira incomodativa, como que a denunciar em mim um elemento estranho, ridículo, exótico e sei lá o que mais. Que nojentos! E eu sem poder rebentar exactamente por causa do raio da velhota e dos ranhosos dos miúdos!
Aquilo do bar, ainda há bocado, era afinal o que se passava: eu não consegui bater o tipo porque ele era todos os outros, e exactamente como isso é que ele me bateu. Não adianta contemporizar, tudo é a mesma coisa. Mesmo os que têm a mania de que fazem excepção só são isso em campos neutros ou quando tenham necessidade de vir até mim, porque, em volta deles edificam muros de tabus e defendem-se com os mesmos nojentos olhares enojados sempre que alguém vai para além desses muros. Eu que o diga!
 Eu precisava de ir para casa. Ia comer arroz e caril de amendoim como eles queriam que fizesse, mas não para encher a barriga. E precisava de ir para casa para encher os ouvidos de berros, os olhos de miséria e a consciência de arroz com caril de amendoim.
 Sentada na esteira a velhota estava quieta, a ver os miúdos a comer. De vez em quando levantava-se um e vinha trazer-lhe o prato de alumínio para ela servir-lhe mais. Foi de uma dessas vezes que a velhota deu comigo. Estava com a colher de pau erguida, cheia de arroz, e ia despejá-lo no prato, quando parecendo lembrar-se de qualquer coisa, se virou para a porta. Logo que me viu espreitou para o fundo da panela e perguntou-me se queria comer.
   — Ainda não sei se quero comer ou não — respondi.
 Virou-se para o lume, demorou-se um bocado a olhar para as chamas com a concha ainda no ar e depois perguntou:
   — Estás zangado? Estás tão zangado que não podes comer e nem sabes se queres ou não?...
   — Não, não estou zangado.
 A velhota pensou ainda um bom pedaço e resmungou:
   — Então está bem, se não estás zangado... E como ao dizer isto estivesse virada para o miúdo, perguntou-lhe como se isso lhe interessasse mais do que qualquer outra coisa.
   — Quito! O que é que tu estás para aí a mastigar sem parar, Quito?
  Antes que Quito desimpedisse a boca para poder responder, a Khatidja berrou lá do fundo:
  — Esse Quito está a mastigar a carne que roubou do meu prato sem eu ver! É minha, mamã! Chi? Quito, tu és um ladrão! — e voltando-se para mim — É minha, estou-te a dizer, Mano!
 O Quito mostrou na palma da mão tudo o que tirou da boca e admirou-se:
   — Esta carne, Kati, esta aqui? Foi a Mamã que me deu, estás a ouvir? — e para mim
   —Não foi, Mano?
 A essa altura já os miúdos estavam num berreiro desgraçado e a velha impôs-se:
   — Shhh!...
 Calou-se tudo num instante menos a Khatidja, que ainda choramingava:
   — É minha... É minha... Ele roubou! Chi! Quito não tens vergonha? Eu vi-te... Mas os outros miúdos ajudaram a velhota:
   — Shhh!... A Khatidja virou-se para eles:
   — Shhh!...
E desataram-se todos a fazer «shhh».
Com a colher de pau ainda erguida a velhota olhava para aquilo tudo. Depois os miúdos fartaram-se da brincadeira e voltaram a comer e o Quito pôs na boca tudo o que tinha na mão. Só então é que a velhota despejou a colher no prato do miúdo. Antes de lhe pôr caril pensou um bocado e voltou a servir-lhe outra e outra colherada de arroz. Quando o miúdo se ia embora perguntou-me com um ar distraído:
   — Mas é verdade que não sabes se queres comer ou não?
   — Bem, e se eu quiser? (Aborrecia-me aquela insistência, caramba!).
 A velhota pareceu ficar aflita. Espreitou para o fundo da panela e sorriu-se para mim como que a desculpar-se:
   — Ê que só há ucoco!
 Lá dos cantos os miúdos comentaram: Chi!! A ucoco?! O Quito fez «shh» e tudo se pôs a fazer «shh».
A velhota berrou e os miúdos continuaram a comer.
   — E então por que é que insistes em perguntar se quero comer? E o que é que tu vais comer?
   — Eu não tenho fome — respondeu a velhota.
   — Mas não há mais comida, não é isso?
   — Eu não tenho fome... Não tenho, juro que não tenho. Mas se tu quiseres faço chá num instante, queres?
   — Eu também não tenho fome.
   — Nesse caso faço chá para os miúdos, para eles tomarem, se continuarem com fome.
 Depois não me pude furtar ao impulso de abraçar a velhota. Ela manteve-se quieta quando enterrei a cabeça entre os seus seios. Rindo-se nervosa, protestou:
   — Mas tu não costumas fazer isso... E continuou a rir-se até ter coragem de me apertar nos braços.
   — Meu filho...
Senti-lhe os dedos ásperos a percorrerem-
-me timidamente ia cara. Depois beijou-me e riu-se muito. Ouvi os miúdos a rirem-se também.
 «Tu não costumas ser assim! O que é que foi... Meu filho... Meu filho... Tens fome? Queres que faça chá para ti?»
 Eu já não ouvia aquele tom de voz desde não sei quando e talvez nem me lembrasse de o ter ouvido alguma vez.
   — Bateram-te? Diz-me, meu filho, eles bateram-te? Quem foi?
   — Não, não me bateram.
   — Mas eles fizeram-te alguma coisa, não fizeram? Tu estás com raiva, não é?
 Tentei não falar, mas não tive tempo de pensar:
  — Eles destruíram tudo, eles roubaram, eles não querem...
 Senti-a prender a respiração e endurecer ligeiramente.
   — Não queres contar? Não? Não queres?
   — Não serve de nada. Os miúdos aproximaram-se:
  — Conta, conta...
   — Nada, vocês hão-de crescer, agora não chateiem.
   — Sim, meu filho, há o tempo, o tempo... Tudo há-de mudar, tudo há-de melhorar... E quando eles crescerem...
   — Hão-de crescer... Pois hão-de crescer nisto...
   — De verdade que não queres contar?
   — Conta, conta!—e os miúdos rodeavam-nos na esteira.
Não, eu não contaria. Não fora para isso que viera para casa. Além disso, não seria eu a destruir neles fosse o que fosse. A seu tempo alguém se encarregaria de os por na raiva. Não, eu não contaria.
   — Meu filho... Acho que me sobressaltei ao ouvir a velhota.
   — Meu filho, eu não entendo bem o que estas para aí a dizer, palavra que não entendo. Mas tu tremes, tu estás ou assustado ou muito zangado ou outra coisa qualquer, e o que tu dizes não é bom, porque estás a tremer, palavra que estás a tremer...
 Talvez a velhota tivesse razão porque deve ser raro a velhota não ter razão. Mas de toda a maneira isso não modificava nada. Eu não contaria e pronto; e ainda que contasse de que serviria isso? Sim, de que serviria, se a porcaria, o raio da porcaria daquilo tudo viria para aqueles miúdos com outros pormenores, em outras circunstâncias e com outros nomes?
   — Eh, vocês todos! Dormir, anda! Sim, dormir, o que é que estão a olhar? Dormir!... Mas... quem sabe? E também por que não acreditar? Por que não acreditar em qualquer coisa de giro? Como por exemplo que a formação dos miúdos fosse diferente da minha e que lhes conferisse uma condescendência para com aquelas coisas, uma condescendência que as minhas coordenadas emocionais não comportavam... E que talvez, eu sei lá, que talvez para com eles o tempo obrigasse a mais compreensão, mais carinho, sim, a mais humanidade... Porque talvez a velhota tivesse razão, há o tempo, o tempo...
   — Meu filho os miúdos já se foram...
  — Sim, eu vou dizer: eles bateram-me.
   — Quem foi? Mas isso não é tudo, tu tremes...
   — Sim, isso não é tudo. E até não é nada. Eles fizeram-me pequenino e conseguem que eu me sinta pequenino. Sim, é isso. Isso é que é tudo. E porquê? Eles nem o dizem de alto. E tudo cai, cai de repente, com barulho aqui dentro, e cai e cai e cai...
   — Bem, acho que o melhor é não querer saber disso para nada, porque não percebo nada do que tu dizes...
 Ficámos silenciosos os dois, e de tal maneira estávamos abraçados que não sabia se era realmente ela que tremia. Tenho a impressão de que só neste momento é que vi as chamas, embora estivesse há muito tempo a olhar para elas. O seu calor era bom e envolvia-nos, mas para isso elas torciam-se num bailado estranhamente rubro. Só deixei de as olhar quando a velhota falou duma maneira que me fez logo pensar que ela tinha estado um bom pedaço a matutar na maneira de me dizer qualquer coisa que afinal não disse. Acho que ela só disse:
   — Meu filho...






AS MÃOS DOS PRETOS
Já nem sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.
Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais claras que agoraé ver-me a não largar seja quem for enquanto não me disser porque é que eles têm as palmas das mãos assim tão claras. A Dona Dores, por exemplo, disse-me que Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa.
O Senhor Antunes da Coca-Cola, que só aparece na vila de vez em quando, quando as coca-colas das cantinas já tenham sido todas vendidas, disse-me que tudo o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei se realmente era, mas ele garantiu-me que era. Depois de eu lhe dizer que sim, que era aldrabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:
“Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Virgem Maria São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa altura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o céu, fizeram uma reunião e decidiram fazer pretos. Sabes como? Pegaram em barro, enfiaram-no em moldes usados e para cozer o barro das criaturas levaram-nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lugar nenhum, ao pé do brasido, penduraram-nas nas chaminés. Fumo, fumo, fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber porque é que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar enquanto o barro deles cozia?!”.
Depois de contar isto o Senhor Antunes e os outros Senhores que estavam à minha volta desataram a rir, todos satisfeitos.
Nesse mesmo dia, o Senhor Frias chamou-me, depois de o Senhor Antunes se ter ido embora, e disse-me que tudo o que eu tinha estado para ali a ouvir de boca aberta era uma grandessíssima pêta. Coisa certa e certinha sobre isso das mãos dos pretos era o que ele sabia: que Deus acabava de fazer os homens e mandava-os tomar banho num lago do céu. Depois do banho as pessoas estavam branquinhas. Os pretos, como foram feitos de madrugada e a essa hora a água do lago estivesse muito fria, só tinham molhado as palmas das mãos e as plantas dos pés, antes de se vestirem e virem para o mundo.
Mas eu li num livro que por acaso falava nisso, que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Vírginia e de mais não sei aonde. Já se vê que a Dona Estefânia não concordou quando eu lhe disse isso. Para ela é só por as mãos desbotarem à força de tão lavadas.
Bem, eu não sei o que vá pensar disso tudo, mas a verdade é que ainda que calosas e gretadas, as mãos dum preto são sempre mais claras que todo o resto dele. Essa é que é essa!
A minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão de as mãos de um preto serem mais claras do que o resto do corpo. No dia em que falámos disso, eu e ela, estava-lhe eu ainda a contar o que já sabia dessa questão e ela já estava farta de se rir. O que achei esquisito foi que ela não me dissesse logo o que pensava disso tudo, quando eu quis saber, e só tivesse respondido depois de se fartar de ver que eu não me cansava de insistir sobre a coisa, e mesmo assim a chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela me disse foi mais ou menos isto:
“Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho, Ele pensou que realmente tinha de os haver... Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para as casas deles para os pôr a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já não os pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituado a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exactamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes porque é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem, é apenas obra dos homens... Que o que os homens fazem, é feito por mãos iguais, mãos de pessoas que se tiverem juízo sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos”.
Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos.
Quando fugi para o quintal, para jogar à bola, ia a pensar que nunca tinha visto uma pessoa a chorar tanto sem que ninguém lhe tivesse batido.





Ungulani Ba Ka Khosa






Escritor moçambicano, de nome verdadeiro Francisco Esau Cossa, nascido a 1 de agosto de 1957, em Inhaminga, província de Sofala. Tirou o bacharelato em História e Geografia na Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, exercendo a função de professor. Iniciou a sua carreira de escritor com a publicação de alguns contos e participou na fundação da revista Charrua na Associação de Escritores Moçambicanos, de que é membro. Tem publicado a seguintes obras: Ualalapi (1987), Orgia dos Loucos (1990), Histórias de Amor e Espanto (1999) e No Reino dos Abutres (2002).
Centrada sobre a crueldade e despotismo de Ngungunyane, o último Imperador de Gaza, Ualalapi, a primeira das obras citadas, foi distinguida, em 1990, com o Grande Prémio da Ficção Narrativa; em 1994 com o Prémio Nacional de Ficção e, em 2002, foi considerada como um dos melhores livros africanos do século XX.


UALAPI (excerto / 3)

«Uma chuva miúda acompanhou o barco até ao mar alto, fora do horizonte das pessoas que não ia muito além das poucas milhas da costa onde o mar glauco e revolto levantava ondas que se desfaziam nas pedras do pré-câmbrico, despojadas das suas escarpas que forram testemunhas de cenas várias, como a do viajante zarolho que por estas terras aportou com um volumosos manuscrito entre as mãos e que mais versos fez, cantando esta ilha enquanto saciava a sede e a fome que o atormentava, ante o espanto e a comiseração d s negras islamizadas em verem um branco esquálido, longe de saberem que aquele homem magro e famélico relançaria ao mundo uma terra que os pedestres de pés cambados a percorrerem numa semana sem outro esforço que olhar a paisagem.»