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9.5.12

Literatura de São Tomé - FRANCISCO JOSÉ TENREIRO


FRANCISCO JOSÉ
TENREIRO





Índice





Francisco José Tenreiro nasceu em São Tomé e Príncipe em 1921 e faleceu em 1963,  numa altura em que se intensificava a Guerra Colonial. Geógrafo por formação, usou a poesia para exprimir a nova África, já não a dos postais ilustrados e dos povos, plantas e animais exóticos, mas a de um novo tempo, marcado pela fusão de culturas nativas.
Veio para Lisboa ainda bastante novo, numa altura em que nos Estados Unidos e na França se ouviam as novas vozes dos intelectuais negros a reclamarem os direitos e a proclamarem a identidade dos povos africanos. Tenreiro enquadra-se nesta corrente. Também ele viveu para exaltar a cultura da sua terra natal, se bem que não renegando certos valores adquiridos com a colonização. Por isso, mais do que o poeta da negritude, assume uma postura de defesa de todas as minorias étnicas, como é visível no poema “Negro de Todo o Mundo”. A sua poesia exalta o homem africano na sua globalidade, ou seja, a diáspora africana que se propagou por todos os cantos do mundo.
Publicou a sua primeira obra – Ilha de Nome Santo – na colecção coimbrã “Novo Cancioneiro”, integrando-se na corrente neo-realista que então surgia em Portugal. Poeta da mestiçagem, do cruzamento de culturas e de vozes, escreve, na “Canção do Mestiço”, “nasci do negro e do branco / e quem olhar para mim / é como se olhasse / para um tabuleiro de xadrez”, continuando “E tenho no peito uma alma grande, / uma alma feita de adição”. É nessa adição que reside a diferença. Tenreiro não apela a um retorno às origens africanas mas ao respeito das pessoas de todas as cores, de todas as tradições. A sua voz é verdadeiramente a voz do exílio, por um lado, e do entrecruzamento das culturas e das raças, por outro.
Em 1953, juntamente com o angolano Mário de Andrade, publica, em Lisboa, Poesia Negra de Expressão Portuguesa, uma antologia de textos de novos intelectuais africanos. O próprio nome era já provocação: a africanidade implicava a desestruturação da portugalidade, o que, numa época de ditadura, era no mínimo arriscado fazer. É a busca de uma nova consciência africana.
Em 1962, Tenreiro concluiu o seu segundo livro de poesia, Coração em África, que já não viu publicado, por ter falecido no ano seguinte. (in Infopédia, Porto Editora)
 
Considerado o primeiro poeta da Negritude de língua portuguesa, Ilha de Nome Santo é, porém, poesia eminentemente insular, não obstante os “3 poemas soltos” cuja estética está em consonância com a dos poemas dos anos 1950, revitalizadores de figuras, signos e símbolos emblemáticos do mundo negro-africano e vinculados aos modelos tutelares da consciência negra nos Estados Unidos, Cuba ou Haiti e redimensionados pelo movimento da Negritude. Assim, tal como os “3 poemas soltos”, incluídos em Ilha de Nome Santo, a saber “Epopeia”, “Exortação” e “Negro de todo o Mundo”, os poemas negritudinistas de Coração em África evocam, para estigmatizar, a desagregação e a dispersão absoluta do povo negro, a tristeza, a melancolia e a martirizada submissão do negro da diáspora. Expressão pungente das realidades do mundo negro-africano, esses aspectos conjugam-se com a dimensão do orgulho da raça, da exaltação cultural expressa pelo invocacionismo das entidades simbolicamente apreendidas como genésicas e cosmogónicas (Mãe-Terra/Tellus) e pelo evocacionismo ancestral, configurado no retorno às origens e na concepção redencionista da vida, em forma de esperança e certeza, aliás uma dimensão configuradora da estética negritudinista.
Na 2ª parte de Coração em África, o poeta “regressa” à sua ilha: fizera um percurso desde Ilha de Nome Santo, em que o desejo de conhecimento das realidades e de identificação com a terra natal (que a dedicatória, primeiro, e, depois, o poema “A canção do mestiço” sintetizam) o leva a perscrutar as especificidades sociais e culturais da ilha, numa escrita neo-realista cujo funcionamento ideológico revela uma dimensão nacionalista pelas suas intenções anti-coloniais. Nomeara em Ilha de Nome Santo a exploração colonial e a precariedade social da população nativa, em “Cancioneiro” e no “Ciclo do Álcool”, a identidade mestiça do ilhéu (por vezes uma dolorosa mestiçagem, como na poesia do “Romanceiro”), subvertendo o código do exotismo literário ao textualizar “realidades miúdas da vida do homem” para, após um mergulho no universalismo negritudinista, que começara em “3 poemas soltos” e continuaria na primeira parte de Coração em África, regressar à pulsão da tellus insular. Os poemas dessa segunda parte, intitulada “Regresso à ilha”, maioritariamente escritos durante uma estada em São Tomé, na Páscoa de 1962, relevam do evocacionismo da terra natal, das suas potencialidades naturais e culturais, mas também espirituais, revalorizando-as através da citação dos seus frutos, animais, paisagens, ritmos e sensações, num gesto de imersão na tellus que o poeta realiza convocando os seus mais atávicos afectos; mas ainda assim, nunca esquecendo as tensões sociais, em última instância coloniais. (Inocência Mata, “Marcelo de Veiga e Francisco José Tenreiro” in Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Pires Laranjeira, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, p. 339)
 
[…] Regressemos, entretanto, à concepção de Tenreiro, da negritude como sentimento e razão-base da poética negra, que eu preferia substituir pelo adjectivo africana. É que, parece-me, o rigor antropológico-cultural aconselha a substituir o conceito de mundo negro pelo de mundo africano, quando se fala de produções textuais realizadas na língua de colonização. Com efeito, a expressão mundo africano não é, para mim, sinónima da de mundo negro. Esta é certamente a base, o elemento de estruturação daquele que é já o resultado duma miscigenação cultural conseguida por contactos e contaminações, aceites ou impostas, que provocaram aculturações, mais profundas, como no caso do crioulismo, ou menos profundas, como no caso do mulatismo. O mundo africano, em termos culturais, traduz, pois, uma realidade resultante do encontro do mundo negro com mundos culturais e civilizacionais diferentes que interferiram e alteraram substancialmente a cosmogonia e a ontogonia do homem negro tradicional. Portanto, o mundo africano, como mátria da expressão de sentimentos de todos aqueles que nasceram em África e lhe adoptaram, e adoptam, a cosmologia, torna-se um conceito muito mais abrangente e rigoroso, porque implica e explica os fenómenos culturais e estéticos que têm o mundo negro por referência. Tenreiro, ao adoptar a expressão “sentimento que é a razão-base”, quereria dizer, decerto, sentimento-base de pertença ao mundo africano com as suas tensões civilizacionais e com as suas contradições políticas e culturais, originadas pela colonização, pelo esclavagismo e pelo colonialismo, pois ele sentia que a África do mundo negro tinha sido definitivamente afectada pelas civilizações judiocristã e islâmica. Isso me parece particularmente patente no poema “Epopeia” do livro de Tenreiro a que nos referimos. Veja-se apenas a estrofe que introduz esse poema, onde se lê: 
Não mais a África
da vida livre e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
— veias intumescidas dum corpo em sangue! 
Da leitura desta estrofe, surge nítida a consciência do poeta de que a Africa negra, no sentido antropológico, ficava já longe e na memória daqueles, seus filhos, que nasceram marcados, histórica e afectivamente, pelo tempo em que “Os brancos abriram clareiras/a tiros de carabina./Mas clareiras fogos/arroxeando a noite tropical.” […]
O poema “Epopeia” parece-me, por isso, poder ser considerado como o texto emblemático da africanidade poética de Francisco José Tenreiro e da sua postura estética, perante a Africa, a que chamo africanitude, isto é, visão dialéctica entre a Africa negra tradicional e aqueloutra pigmentada e alterada, de que a colonização portuguesa foi uma espécie, não direi melhor em termos absolutos, mas seguramente melhor em termos relativos e, sobretudo, diferente das outras civilizações europeias na sua dinâmica cultural e civilizacional pela colonização europeia. As duas estrofes finais desse poema concretizam, quanto a mim, essa visão: 
Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja o ritmo de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma vida nova!

...para que a tua gargalhada
de novo venha estraçalhar os ares
como gritos agudos de azagaia! 
Por aqui se vê que o futuro, o dessa vida nova preconizada pelo poeta, é feito também do passado de que a azagaia nos dá a referência, criando-se, assim, um movimento dialéctico em que todo o regresso aponta para um progresso.
A africanitude é, pois, entendida como uma visão dialéctica do mundo negro com os outros mundos culturais que com ele entraram em contacto, originando um dialogismo discursivo e textual realizado através da língua de colonização que o poeta e escritor africano transforma de língua de opressão em língua de libertação, por meio duma fala africanizada que traz consigo todos os sentidos evocados do drama secular do homem negro. Dialogismo, por vezes, tenso na sua forma de expressão, para ser capaz de traduzir melhor esse drama, sintetizado para a terra de S. Tomé e Príncipe na última estrofe do poema de Tenreiro que deu o título ao seu primeiro livro — Ilha de Nome Santo. Aí se lê: 
Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro
onde apesar da espada e duma bandeira multicolor
dizerem poder dizerem força, dizerem império de branco
é terra de homem cantando vida que os brancos jamais souberam
é terra do sàfu do socopé da mulata
— ui! fetiche di branco! —
é terra do negro leal forte e valente que nenhum outro! 
A africanitude é, ainda, essa voz poética que privilegia o amor e a humanidade do homem africano, enquanto tal, sem cedências às emoções sensuais e rituais que, embora definidoras duma África tradicional, já não são mais miticamente olhadas. Privilegia também a África do nosso tempo na sua multivalência, onde a tradição e a modernidade convivem, aceitando as realidades que a história nela plantou regadas embora pelo sangue de milhões dos seus filhos. Realidades que a inspiração poética de Tenreiro traduziu melhor no seu segundo livro — Coração em África —, deixado pronto para publicação que a morte não lhe permitiu ver, e onde em poemas, marcados por uma escrita da modernidade sem, todavia, prescindir da característica estrutura narrativa própria da textualidade negra-africana, tais como “Amor de África”, “Mãos” e “Coração em África”, o poeta nos apresenta a força do seu estilo irónico, por vezes mesmo sarcástico, e agressivamente dialógico, onde a estética jamais fica prejudicada pela mensagem social que os textos veiculam.
A africanitude, em Francisco José Tenreiro, é, por fim, uma atitude poética e filosófica, donde a raça e a cor, por si, não têm a valorização absoluta que a negritude lhes confere, preferindo-se, antes, considerar o homem como um ser universal, onde conta mais a alma, a essência, do que a pigmentação da epiderme, porque o poeta sabe que o amor e a maldade são acrómicos. E, assim, africanitudamente, o poeta pode cantar a sua mátria, nesse extraordinário poema que é “Nós, Mãe” e de que respigo esta expressiva passagem: 
Ah! Brancos, negros e mestiços
escaldaram o teu corpo de sensações
com o bafo quente de um vulcão maldito.
E os teus seios secaram
o teu corpo mirrou
e as pernas engrossaram
enraizando-se no teu próprio corpo.

E os teus olhos...

Os teus olhos perderam o brilho
ao sentirem o chicote
rasgar as carnes duras dos teus filhos.
Os teus olhos são poços de água pálida,
porque cheiraste na velha cubata
o odor intenso de uma aguardente qualquer.
Os teus olhos tornaram-se vermelhos
quando brancos, negros e mestiços instigados
pelo álcool
pelo chicote
pelo ódio
se empenharam em lutas fratricidas
e se danaram pelo mundo.

E a ti,
Oh! mãe de negros e mestiços e avô de brancos!
ficou-te esse jeito
de te perderes na beira de algum caminho

e te sentares de cabeça pendida
cachimbando e cuspindo para os lados.

Mas os teus filhos não morreram, negra velha,
que eu oiço um rio de almas reluzentes
cantando: nós não nascemos num dia sem sol!
 
A África de expressão portuguesa, na sua tridimensão cultural e étnica, aí está presente, comungando um mesmo espaço filosófico e um mesmo tempo social.
Se saíssemos, agora, do domínio dos textos poéticos de Tenreiro, incluídos no seu primeiro livro, e passássemos a algumas considerações extratextuais que, todavia, estão com eles relacionadas, poderíamos, penso eu, acentuar a ideia de que a escrita desse poeta santomense, pelo menos a inicial, fez o seu percurso à margem de qualquer influência negritudinista, que não é visível em nenhum momento textual, nem pela citação nem pela invocação de autores, como acontece, no seu segundo livro, onde o afro-americanismo, por exemplo, está presente. Aliás, se Antero de Abreu está certo, quando afirma que só no fim dos anos 1940, princípio dos anos 1950, é que os estudantes africanos de expressão portuguesa começaram a ter contacto com a poesia de Langston Hughes, Guillèn e com os poetas da Negritude (Cf. Manuel Ferreira, in Prefácio a Poesia Negra de Expressão Portuguesa, Lisboa, 1982), então a poesia de Tenreiro, escrita no meio dos ventos neo-realistas do “Novo Cancioneiro” coimbrão, sendo coetânea na sua produção da do grupo negritudinista de Paris, não teria sido por ele certamente motivada. O facto de fazer do homem negro, em particular, e do homem africano, em geral, o seu sujeito poético, não pode significar identidade ético-estética necessária para uma mesma filiação. Aliás, a negritude esqueceu-se de que o homem africano é culturalmente e, por vezes, mesmo etnicamente, diferente do homem negro.
Parece-me, portanto, que o uso do conceito de africanitude é menos marcado e, por isso mesmo, mais capaz de traduzir a dimensão mulata, estética e culturalmente falando, da poesia de Francisco José Tenreiro, poeta arrancado cedo à vida e à Africa que, no entanto, teve ainda tempo para cantar e louvar numa linguagem retoricamente rica e variada, sem jamais perder, contudo, a perspectiva social. Tenreiro é bem o exemplo de como o social e o estético podem conviver, sem que um submerja o outro, procurando-se, antes, o equilíbrio que garanta a qualidade artística de que todo o texto necessita para ser verdadeiramente literário.
São Tomé, 14-9-1984.
(in Ensaios de Literatura Comparada Afro-Luso-Brasileira, Salvato Trigo, Lisboa, Vega, s/d, pp. 89-95)
  
[…] A busca das identidades individual e nacional é sempre o cerne da questão cultural, social e literária dos países africanos sob domínio colonial, quer se processe através de formas combativas ou expositivas. Nenhuma das duas identidade é procurada explicitamente, mas ambas são o desígnio desses poemas tão aparentemente alheios quer a egocentrismos quer a etnocentrismos. Nunca essa busca desesperada — mas não cega, porque iluminada por uma sólida preparação cultural — se apresentou tão encoberta e indizível como na poesia de Francisco José Tenreiro: descobrimo-la latente, nos espaços silenciosos (mas activos) entre os poemas, entre os títulos e os poemas, entre grupos de poemas, entre significações adversas. […]
Nos dois livros de poemas há grupos dedicados à terra natal e todos eles carecem de convicção poética, da luxo da estética, porque contaminados ora por um construtivismo realista, na primeira fase, ora pela rasura da saudade, na última. O tema da terra e das gentes insulares, batidos pelos ventos agrestes da história colonial, tratado de forma empenhada ou nostálgica, responde às necessidades da construção de uma imagem identificativa nacional. A emblemática nacional, forjada em irredutíveis especificidades, erige-se contra a agressão de que o sujeito poético é vítima em meios sociais e ecológicos que lhe provocam, no mínimo, a sensação de estranheza: “riam todos vocês assistência sem vida.” (in Amor de África, 1963); “e o coração entristece à beira-mar da Europa” (in Coração em África, 1953). A recusa (e a repulsa) da Europa, enquanto símbolo do pai colonial, obriga à construção de paradigmas substitutos da orfandade pátria, representada pela mãe-terra distante e perdida na memória, mas inequivocamente amada. Não é por acaso que o poema-dedicatória que abre Ilha de Nome Santo refere somente a mãe como destinatária do livro, constatando: “Entre nós: uma raça!”.
A raça, a cor rácica, conquanto categoria analítica destituída de pertinência sistemática para a elaboração de uma conceptualização do indivíduo enquanto ser social, serve como estigma diferenciador dos desníveis económicos e dos desencontros sociais, marcados pela estratificação de classes e a detenção do poder político. A coloração epidérmica aparece distribuída por seis núcleos e seus derivados semânticos: branco, preto, negro, mulato, mestiço e moreno. Os lexemas indicativos de cor racial ou para-racial são cerca de 175. O tipo de co-texto analisado permite detectar quatro acepções sémicas fundamentais da coloração epidérmica: rácica propriamente dita, política, social e simbólica. É muito curioso verificar que os lexemas preto e negro, mais os seus derivados, incluindo os gramaticais, ultrapassam a centena. O lexema branco, e seus derivados, encontra-se a 50 por cento. Os restantes, mulato, mestiço e moreno, aparecem somente 21 vezes. Isto significa, muito simplesmente, que os poemas de Tenreiro falam sobretudo do negro de todo o mundo e, em menor escala, do mestiço santomense. O branco intervém como contraponto inevitável para a definição do sujeito poético enquanto indivíduo, primeiro africano e, depois, santomense. O branco, delineado sempre como ser estranho ao mundo insular, representa a ascendência patrilinear que ajudou a fecundar uma nova civilização, a qual transporta em si a carga negativa que urge recusar. (Pires Laranjeira, “Francisco José Tenreiro a preto e branco, II” in: Les litteratures africaines de langue portugaise : a la recherche de l'identite individuelle et nationale, org. José Augusto França, Paris, Fondation Calouste Gulbenkian, 1985, pp. 423-429.)
 
 
1

Quando seu Silva Costa
Chegou na ilha
Trouxe uma garrafa de aguardente
Para o primeiro comércio.

A terra era tão vasta
Havia tanto calor
Que a água
Parecia não ter potência
Para acalmar a sede da sua garganta.

Seu Silva Costa
Bebeu metade...

E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.



2

A lua batendo nos palmares
Tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
È o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
Soluçam as cubatas
Batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
Os brancos estão fazendo negócio
A golpes de champagne!

3

Mãe Negra contou:
"eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!..."

Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
Estremeceram um sorriso longínquo.

- E depois Mãe-Negra?

"Oh!
Filhinho
Entrou no vinhateiro
Vinhateiro entrou nele..."

Os olhos de nhá Rita
Estão avermelhando de tristeza.

"Hum!
Filhinho
Ficou esquecendo sua mãe!.
1942

ROMANCE DE SINHÁ CARLOTA
Na beira do caminho
sinhá Carlota
está pitando no seu cachimbo.

Um círculo de cuspo
a seu lado...

Veio do sul
numa leva de contratados.
Teve filhos negros
que trocam hoje o peixe
por cachaça.

Teve filhos mestiços.
Uns
forros de a. b. c.
perdidos em rixas de navalhas.
Outros foram no norte
com seus pais brancos
e o seu coração
já não lembra o rostinho deles!

Sinhá Carlota
veio há muito do sul
numa leva de contratados...

Assim
embora pra seu branco
o seu corpo não baile mais no sòcòpé
ele ao passar
fica sempre dizendo:
                                    sàbuá?

Sinhá Carlota
nos olhos cansados e vermelhos
solta um achô distante
enquanto vai pitando
no seu cachimbo carcomido...
Ilha de Nome Santo
  
 
ROMANCE DE SEU SILVA COSTA
«Seu Silva Costa
chegou na ilha...»

Seu Silva Costa
chegou na ilha:
calcinha no fiozinho
dois moeda de ilusão
e vontade de voltar.

Seu Silva Costa
chegou na ilha:
fez comércio di álcool
fez comércio di homem
fez comércio di terra.

Ui!
Seu Silva Costa
virou branco grande:
su calça não é fiozinho
e sus moeda não têm mais ilusão!

Os poemas dessa primeira obra (“Romance de seu Silva Costa”, “Romance de San Marinha”, “Romance de Sinhá Carlota”, “Canção do Mestiço”, “Canção de Fiá Malicha”, “Socopé”, etc) falam de situações e de gentes ligadas à terra distante, desde o ambicioso "pequeno português" seu Silva Costa, que " chegou na ilha: calcinha no fiozinho, dois moeda de ilusão e vontade de voltar"; que " fez comércio di álcool / fez comércio di homem / fez comércio di terra " mas que  hoje " virou branco grande : su calça não é fiozinho e sus moeda não tem mais ilusão...", passando pela desenraizada e desadaptada San Marinha, filha da terra, que ainda menina "foi no norte" e aí se habituou aos "goles de champagne", ou seja, aos requintes da Europa (tomados no seu sentido mais perverso) e a quem a ilha já nada tem a oferecer.
Pungente é também o "Romance de Sinhá Carlota", dedicado à sua mãe, mas suficientemente envolvente para parafrasear todas as mães negras vítimas do destino trágico de verem perdidos os seus filhos, tanto negros como mestiços: " teve filhos negros que trocam hoje o peixe por cachaça/ teve filhos mestiços / Uns / forros de a b c / perdidos em rixas de navalhas / Outros foram no norte / com seus pais brancos / e o seu coração / já não lembra o rostinho deles !" (“Francisco Tenreiro: a angústia de um poeta dividido”, Lisboa, 24-05-2007, http://www.cstome.net/diario/OPINIAO/2007/28/Francisco Tenreiro.htm)
Negro
para quem as horas são sol e febre
que colhes
nesse ritmo de guindaste.

Negro
para quem os dias são iguais
que respeitas teu patrão e senhor
como água que mexe o engenho.

Negro!
         Levanta os olhos prao sol rijo
e ama tua mulher
na terra húmida e quente!
Coração em África, 1982
O poema “Exortação”, como o próprio título indica, é uma advertência, um apelo que se dirige a um sujeito-exortatório, isto é, um sujeito a quem o poeta sente ser lícito dirigir a exortação. Mas quem é este negro, este sujeito-outro, a quem o poeta sente a necessidade e a urgência de exortar? É ele o negro anónimo, representante de todos os negros colonizados e explorados, aquele que perde o seu tempo trabalhando para outrem, o que esgota o seu ritmo e desperdiça sentimentos de respeito para com aquele que o subjuga, o que o poeta refere como sendo o “patrão e senhor” desse negro – símbolo do povo africano. É por isso que a palavra “negro” surge cabeça de cada uma das três estrofes do poema, repetição que ocorre não só com o intuito de chamar constantemente a atenção desse negro para a sua situação, como também, numa segunda instancia, para chamar a atenção do leitor para a situação em que se encontra esse negro que urge alertar. É de notar que na última estrofe a palavra “negro” assume mais do que nunca um aspecto imperativo, não só dada através do ponto exclamativo que a precede (e que mostra até que ponto o poeta está emocionalmente envolvido com a situação do negro exortativo), mas ainda pelo uso de verbos na forma imperativa – “Levanta” e “ama” – o que expressa o carácter urgente e inevitável da exortação que é aqui feita, conferindo estatuto de mandamento às palavras do poeta.
Enquanto na primeira estrofe se fala da exploração do negro em termos físicos., identificando-se o seu ritmo laboral com o de uma máquina – o “guindaste” –, na segunda estrofe opõe-se à actividade física um sentimento moral: “que colhes” / “que respeitas” – surgindo, então, um terceiro elemento, objecto desse respeito imerecido, segundo o poeta, ou este não poria uma forte carga irónica na comparação que faz entre a força do poder do ser humano sobre outro ser humano “para fazer mover o engenho” e a força natural da “água que mexe o engenho” por si própria.
Há em ambas as estrofes referências temporais dadas através da metáfora das horas: “as horas são sol e febre” e pela expressão “os dias são iguais”, que mostram como esse negro passa o tempo da sua vida, chamando-se assim a atenção para a urgência temporal da exortação.
Na terceira estrofe o poeta solta toda a emoção e lança o grito de alerta, de apelo urgente e imperativo – é preciso despertar esse negro para que ele ganhe consciência dos seus direitos enquanto ser humano que ao “levantar os olhos para o sol rijo”, símbolo da vida, saia debaixo do jugo que o oprime. A simbologia da vida continua então a ser evocada pelo poeta que se refere agora ao acto amoroso do negro para com a mulher amada; é esse acto de amor um acto supremo de criação, expressão máxima da força da natureza e da vida, símbolo de amor e de libertação, mas também de preservação e de continuação da raça. Símbolo é ainda essa “terra húmida e quente”, lugar onde, para o poeta, esse acto de amor deveria ser consumado. É essa terra-mãe, terra-origem que o negro deve fecundar, pois é nela que está enraizado, nessa terra africana “húmida e quente” como o próprio clima africano, como o próprio clima do amor.
Há um afastamento evidente entre o sujeito poético e esse sujeito-outro que ele exorta, “um olhar de longe” para a situação desse negro a quem urge exortar; mas esse afastamento é atenuado na medida em que esse “olhar de longe” não se queda passivo, antes opta pela exortação, prática oratória que visa exercitar à prática; é esse acto poético que confere ao poeta o direito a advertir o outro, chamando-lhe desta forma a atenção para a situação de escravidão em que vive e agitando a sua consciência para a urgência que há na sua dignificação enquanto ser humano. Só então esse negro poderá amar a sua mulher na plena força da natureza que é a sua pátria. (Maria Paula Montez, Lisboa, 26/12/1991)

O som do gongue
ficou gritando no ar
que o negro tinha perdido.
                Harlém! Harlém!
América!
                Nas ruas de Harlém
                os negros trocam a vida por navalhas!
América!
                Nas ruas de Harlém
                o sangue de negros e de brancos
                está formando xadrez.
                               Harlém!
                                               Bairro negro!
                                                               Ringue da vida!

Os poetas de Cabo Verde
estão cantando...

Cantando os homens
perdidos na pesca da baleia.
Cantando os homens
perdidos em aventuras da vida
espalhados por todo o mundo!

                Em Lisboa?
                Na América?
                No Rio?
                               Sabe-se lá!...

— Escuta.
É a Morna...

Voz nostálgica do cabo-verdiano
chamando por seus irmãos!

Nos terrenos do fumo
os negros estão cantando.

Nos arranha-céus de New-York
os brancos macaqueando!

Nos terrenos da Virgínia
os negros estão dançando.

No show-boat do Mississípi
os brancos macaqueando!

Ah!
Nos estados do sul
os negros estão cantando!

 

A tua voz escurinha
está cantando
nos palcos de Paris.
                Folies-Bergères.


Os brancos estão pagando
o teu corpo
a litros de champagne.
                Folies-Bergères!

Londres-Paris-Madrid
na mala de viagens...

                Só as canções longas
                que estás soluçando
                dizem da nossa tristeza e melancolia!

Se fosses branco
terias a pele queimada
das caldeiras dos navios
que te levam à aventura!

Se fosses branco
terias os pulmões cheios
de carvão descarregado
no cais de Liverpool!

Se fosses branco
quando jogas a vida
por um copo de whisky
terias o teu retrato no jornal!

Negro!
Na cidade da Baía
os negros
estão sacudindo os músculos

Ui!
Na cidade da Baía
os negros
estão fazendo macumba.

                Oraxilá! Oraxilá!

Cidade branca da Baía.
                Trezentas e tantas igrejas!
                               Baía...
                Negra. Bem negra!
Cidade de Pai Santo.

                Oraxilá! Oraxilá!
Coração em África, 1982
A solidariedade sem fronteiras para com as pessoas da raça negra, não importando o local de nascimento e sim a cor da pele e a origem comum, é uma das maiores recorrências na poesia africana de língua portuguesa dos anos 40 e 50, e afrobrasileira da década de 60 à de 80. É a apologia do “negro de todo o mundo”, na qual, o sujeito poético assumindo um caráter coletivo torna-se o porta-voz da sua raça, e se solidariza com todos os negros oprimidos, sejam aqueles que foram escravizados no passado ou os que estão sofrendo a opressão colonial e o preconceito racial no presente, ao mesmo tempo em que exalta as grandes personalidades do mundo negro que se tornaram verdadeiros símbolos para a raça, como o líder revolucionário haitiano Toussaint-Louverture, o pastor evangélico Martin Luther King, o músico Louis Armstrong, e os poetas Langston Hughes, Nicolas Guillén, Aimé Césaire e Senghor, entre outros. (Donizeth Aparecido dos Santos, “Poetas de todo o mundo” in Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, Abril/ Maio/ Junho de 2007 Vol. 4 Ano IV nº 2, www.revistafenix.pro.br)
  
Mestiço!

Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.

Mestiço!

E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição
como l e l são 2.

Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
— mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.




Ah!
                Mas eu não me danei ...
E muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
negritude.png picture by micaelense
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto

a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor! ...


Mestiço!

Quando amo a branca
                sou branco...
Quando amo a negra
                sou negro.
                Pois é...

Assim se introduziu na poesia uma outra categoria: a do mestiço. O conceito de bivalência racial (não no sentido freudiano: amar e odiar) prolonga-se e reparte-se por um lastro mais profundo: social, cultural, linguístico. Porque o mestiço, o mulato, não o é pela fusão de sangues, mas sim, e sobretudo, pelo sincretismo de culturas. E daí transformar-se naquilo a que alguns teóricos chamam o homem de dois mundos: o Africano moderno, mais ou menos aculturado (há quem prefira desaculturado, citemos M. Pinto de Andrade; e, sob um certo ponto de vista, muitas vezes com razão) – daí a sua bipolaridade, a sua dual condição cultural, e o falar-se da sua natureza de indivíduo problemático (designação que, se correcta, caberia bem a Costa Alegre). Portanto, em desequilíbrio? Instável ou estável? Ou pura invenção dos sociólogos?
Na “Canção do Mestiço” de Tenreiro, como em poemas doutros autores que mais tarde se fizeram eco do mesmo tema, a ironia e o humor que atravessam o texto, de princípio ao fim, são uma exemplar afirmação da personalidade do sujeito de enunciação. Retenha-se ainda o salto qualitativo obtido na poesia africana de expressão portuguesa com a intervenção de Tenreiro. (Manuel Ferreira, "Da dor de ser negro ao orgulho de ser preto", in: Revista Colóquio/Letras. Ensaio, n.º 39, Set. 1977, p. 17-29.) 
      “[…] ainda em 1942, Francisco José Tenreiro já revela no poema “Canção do Mestiço” um sujeito poético feito do negro e do branco que, manifestando-se na figura do sujeito da enunciação, está privilegiadamente posicionado na fronteira entre os dois mundos –  isto é, na “fronteira do asfalto” (LUANDINO VIEIRA, A Cidade e a Infância, 1957) e aproxima os dois mundos: “Quando amo a branca/Sou branco/Quando amo a negra/Sou negro/ Pois é...”. Portanto a proposta, ou a possibilidade de complementaridade de opostos, ou de pseudo-divergentes, por ser recorrente, pode ler-se como uma componente da anti-colonialidade que se vai transformar num dos parâmetros da nossa expressão literária pós-colonial.” (Inocência Mata, “O pós-colonial nas literaturas africanas de língua portuguesa”, 2000, http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/aladaa/mata.rtf)
 1
Esparso e vago amor de África
como
uma manhã outonal de nevoeiros calmos sobre o Tejo.
Difuso
e translúcido amor de África
na sombra fugidia ao gás das travessas às três da madrugada.

Amor
pálido de África num céu de andorinhas mortas
num campo branco sem malmequeres nem papoulas

Amor
ténue e pálido, difuso e vago, translúcido de África
no coração murcho das multidões do Rossio olhando o placard

gente
murcha e exausta, cansada e torturada
cansada e torturada para o amor.
(Quatro pulsações febris de um corpo só

oh
África do Nilo e do Zaire oh África do Zambeze e do Níger
quem
em ti está pensando de coração em África?
África dos rios velhos e ruínas ossificadas de Zimbabwé
China das muralhas de crisântemo e sangue
Malaias e Indonésias com encruzilhadas de sonho e febre
Indochina da virilidade com abraços tricolores de fraternité e palavras de balas

quem
em vós está pensando de coração em África, nas Chinas e Malaias, Indonésias e Indochinas de sonhos crispados?)
São
sempre notícias de longe (terras exóticas meu avô andou lá veja a mala de cânfora conheceu o Gungunhana)
são
sempre notícias de longe bafejando corações murchos às cinco horas da tarde no largo do Rossio.
Esparso
e vago amor de África pelas calçadas da cidade.
Vago
amor de África pelas nove horas da manhã, comigo sentado num eléctrico amarelo
deslizando nos carris ainda orvalhados do sonho e da ilusão

com
pernas roliças de sopeiras a caminho da praça
e as vozes acordadas roucas dos embarcadiços encalhados
e as gralhas gentis e palradoras da agulha e linha

comigo
sentado no eléctrico amarelo com carris de sonho
e uma mulher velha com o desejo-de-lugar nos olhos encovados
e eu deslizando com os sonhos dos outros e acordando para os olhos velhos da mulher
levantando-me e ela sentando-se no comentário para a do lado
há rapazes pretos muito gentis, muito gentis, muito gentis
e eu indiferente e vago com a vaguidade do amor daquela mulher esquecida do tempo como um papiro
embalado pelo eléctrico amarelo de sonho e pelos carris
das gralhas mimosas e palradoras;
(ah não haver milho às mãos-cheias para os bichos gulosos de vida destes corpos penugentos

nem
os barcos de papel da infância seguros contra todos os riscos no Lloyd’s da nossa imaginação
para
os homens do mar feitos agora gaivotas cinzentas em terra).
negritude2.png picture by micaelense
Esparso
e vago amor de África pelas calçadas da cidade.
Vago
também as nove e trinta da manhã na tabacaria tolhida de espanto

à esquina do prédio de oito andares

onde
em dois brasidos se queimam olhos fosforescentes de pantera
e há uma mão felina estendendo na ponta das unhas recurvadas

pelo
desejo e pela ambição o maço de Paris
uma mão de veludo e unhas de sangue

metendo conversas secretas e arrepios na espinha
solicitando encontros respeitáveis com carteiras concretas

casacos
cio Alaska e jóias de Kimberley.

2

 

Aqui
estou agora de coração em África
nesta noite fria e nu do capote das ilusões
ouvindo este sábio que tudo sabe tudo sabe de África.

De África e dos pretos claro está!...

Dos pretos que para arrelia das gentes à Terra vieram
pobrezinhas crianças crescidas em pretidão

mas
que têm alma branca dizem uns
ou
segundo outros alma danada.
Aqui
estou eu agora vestido de África por dentro
por
fora cheviote sorridente o sábio ouvindo
que
das pirâmides diz e esquece os negros faraós
da poligamia reverbera olhos fechados à pederastia
fosforescente ao escuro das ruas velhas do mundo cansado

braço
dado com damas de camélias emurchecidas
como
as palavras que solta da sua caveira sem dentes.
Aqui
estou eu agora coração oprimido e sorriso longe
ouvidos
atentos ao linfatismo de repetidas ideias
sei lá quantas vezes e tantas como pingos sujando o meu coração.
 

Oh
! minha África ter-te no peito o que vale
perante
a clareza absoluta e homérica de afirmações tão sábias!


«Eu antes quero uma fuga de Bach que um batuque de cafres;
Prefiro um quadro de Rubens a um manipanso preto;

Sim
, claro, o Ifé e o Benin são excepções ao resto
infantil
, imaturo, caricatural da arte africana»
Casquinava arritmicamente, os dentes soltos na caveira consumida de sabedoria!

De Sabedoria de África e dos pretos claro está!...

Ri caveira morta, riam todos vocês assistência sem vida
Riam todos que o caso não é para menos;

mas
deixem-me por favor este sorriso cheviote por fora
enquanto
o meu coração serenamente conta
os minutos-tempo que faltam para a humanidade renascer!
Lisboa, 1963 (in Coração em África, 1982)
   
Em 1959, «o movimento anti-colonial dos estudantes e activistas africanos avança com a palavra de ordem de "Deixar Portugal rumo ao exílio", sobretudo dos seus principais elementos, que seguem para Paris, Argel, Suíça, etc. e, a partir daí, a Negritude fenece drasticamente, cotando-se o poema "Amor de África" (1963), de Francisco Tenreiro, como um dos últimos textos negritudinistas» (Pires Laranjeira, A Negritude Africana de Língua Portuguesa, Lisboa, Edições Afrontamento, 1995). O poema foi escrito no ano da sua morte, sendo que a sua segunda parte, na opinião do professor Manuel Ferreira, «regista um bloqueio nas tentativas feitas pelo intelectual Francisco José Tenreiro para estabelecer um diálogo franco e aberto com a Europa. O grito que o poema, no fim, faz chegar até nós, mais do que a crença, a esperança, deixou transparecer a raiva - uma raiva desesperada ainda tomada, talvez, pelo fogo vingador da certeza» (idem) (“Francisco Tenreiro : a angústia de um poeta dividido”, Lisboa, 24-05-2007, http://www.cstome.net/diario/OPINIAO/2007/28/Francisco Tenreiro.htm)