12.12.11

Germano de Almeida



            (por: José Carreiro)

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A literatura cabo-verdiana, tomada na sua globalidade, na conturbada época da independência, manteve uma evolução sem grandes sobressaltos, prevalecendo temas e estratégias textuais e estilísticas que vinham da Claridade ou do Neo-realismo e da Resistência. Não apareceu uma literatura tão drasticamente laudatória e enfeudada ao novo poder político, em comparação com Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau. […]
O aparecimento de duas importantes revistas culturais marcou uma nova geração nascida com a independência. A revista Raízes (1977-1984) teve um carácter oficial, que Ponto & Vírgula (1983-1987), por iniciativa de um grupo independente, procurou evitar. Entre ambas, a publicação das Folhas Verdes (1981-82), na Praia, envelopes verdes com folhas soltas de poesia de variadíssimos autores (desde Osvaldo Alcântara a Vera Duarte), tornou-se um primeiro acontecimento de inventividade. Em Raízes, na tradição de Certeza, mas de âmbito mais alargado, publicaram-se importantes trabalhos (estudos e produção literária). A revista Ponto & Vírgula, confeccionada no Mindelo, assumiu um lugar único entre as publicações culturais africanas da pós-independência (com o melhor apuro gráfico de todas), pugnando pela liberdade temática, expressiva e política, favorecida pelo ambiente mais aberto do arquipélago. Dela se destacou o romancista Germano de Almeida, com O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo (1989). (in Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Pires Laranjeira, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, pp. 246-247)

Germano Almeida, um dos nomes de proa da moderna literatura cabo-verdiana, nasceu na ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1945. Saiu da ilha aos 18 anos, indo para Lisboa, onde se licenciou em Direito na Universidade Clássica. Vive na ilha de São Vicente, onde exerce actualmente a profissão de advogado, tendo já desempenhado funções como Procurador da República.
O gosto pela escrita e pelo jornalismo tem acompanhado desde sempre a sua vida profissional. Para além da produção literária, tem sido responsável por projectos tão importantes da vida cultural cabo-verdiana como a fundação, com Rui Figueiredo e Leão Lopes, da revista Ponto & Vírgula (Março de 1983 a Dezembro de 1987), do jornal Aguaviva, de que é co-proprietário e director, e da Ilhéu Editora, em 1989. Colabora ainda habitualmente no diário português Público.
Usando magistralmente as armas do humor, desde a mais fina ironia até ao sarcasmo mais declarado, a obra de Germano Almeida desmascara a hipocrisia reinante na vida pública e privada da sociedade cabo-verdiana que, vista através da sua lupa satírica, se transforma, no fundo, num paradigma de qualquer sociedade. Neste aspecto, O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, livro que foi saudado pela crítica portuguesa, aquando do seu lançamento em 1991, como um dos grandes momentos da literatura Cabo-Verdiana actual, é um caso exemplar, narrando a história de um homem que conseguiu enriquecer vendendo 10.000 guarda-chuvas numa terra cujo principal problema é a seca permanente e cuja vida íntima contrasta com a imagem pública impoluta: é depois da sua morte que se vem a descobrir a filha ilegítima, filha da sua ligação com a mulher-a-dias, Chica, que possuía em cima da preciosa secretária Luís XIV do escritório. Já em O Meu Poeta, romance de grande fôlego publicado logo após O Testamento. A sátira sociopolítica ao regime de partido único que durante anos asfixiou a liberdade e o desenvolvimento do país é de tal forma incisiva que o livro foi considerado o primeiro romance nacional da nova República de Cabo Verde.


Obras publicadas: 
O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo (romance), em 1989
O meu poeta
(romance), em 1990
O dia das calças roladas
(ensaio), 1992
A ilha fantástica
(narrativa), em 1994
Os dois irmãos
(romance), 1995
Estóreas de dentro de casa
(ficção), em 1996
A família Trago
(romance), em 1998
A morte do meu poeta
(romance), em 1998
Estóreas contadas
(crónicas), em 1999
Dona Pura e os camaradas de Abril
(romance), em 1999
As memórias de um espírito
(romance), em 2001
Viagem pela história das ilhas
(investigação histórica), em 2003
Mar da Laginha
(romance), em 2004
Eva
(romance), em 2006.



O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, romance de estreia do escritor cabo-verdiano Germano de Almeida, é um livro cativante de ler. É-nos contada a história da personagem central, que dá nome ao título, a partir da própria história que o protagonista escreveu em “387 laudas de papel almaço”, guardadas num envelope lacrado, dez anos antes da sua morte. A autobiografia é deste modo encenada em testamento, e o narrador traz à cena o defunto que revela inesperados factos sobre a sua já fantasmagorizada existência. Forma permeável à invenção da própria personagem, que não existe, existindo dela apenas aquele volumoso conjunto de memórias (“o falecido, pensando que fazia um testamento, escrevera antes um livro de memórias”, p. 9), e forma adequada ao narrador para inventar a personagem do seu herói, começando pelo fim, por essa óbvia evidência de criar, retrospectivamente, o princípio gerador do falecido, a existência fictícia da sua inexistência factual. A ironia começa também aqui.
À maneira de romance policial, somos levados a descobrir as intimidades pícaras da personagem não só pelo relato que faz delas, mas fundamentalmente pela descoberta dos herdeiros até então desconhecidos a quem são legados a maioria dos bens e o volume de surpresas que o testamento guarda como a cartola de um ilusionista. Reunindo os ingredientes cénicos do início de um filme, o livro abre com a leitura do testamento, que dura uma tarde inteira: “iniciara a leitura às 14,45, mas pelas 16,10 confessava-se cansado e já estava sem voz. O sr. Fonseca leu até às 17,20, após o que o sr. Lima, sorrindo com humildade pediu que lhe deixassem também ler um bocadinho. Coube-lhe por isso ler a parte manuscrita, mas numa letra tão miudinha que ele se engasgou por diversas vezes com as palavras e teve de voltar atrás e assim só cerca das 18,30 foi possível aos intervenientes aporem as respectivas rubricas” (p. 10).
O humor e a paródia, sempre presentes neste romance, irrompem subtilmente desde as primeiras páginas, pelos efeitos bem conseguidos do exagero (“quando vira a enormidade do documento lacrado, sugerira não valer a pena perder tempo a ler todo aquele calhamaço”, p. 9), das enumerações metódicas e caricaturais que funcionam contrastivamente, e por antítese, com a seriedade normal a ocasiões do género. Poucas páginas depois. o livro conta um segundo episódio burlesco, o primeiro pedido do morto, o de desejar ser enterrado ao som da marcha fúnebre de Beethoven: “das esquisitices do tio tudo era de esperar, ainda bem que era só isso, ele podia ter-se lembrado de pedir cremação ou afundamento do esquife junto ao ilhéu... Ora a contrariedade surgiu foi quando o chefe perguntou o que era isso de marcha fúnebre e Carlos, já elucidado, respondeu ligeiro que era qualquer coisa de um tal Beethoven.” (p. 16). Não podendo o agrupamento musical corresponder ao desejo, o chefe da Banda reclamou: “Se toda a gente vai com djosa e nunca houve reclamações, porquê o sr. Napumoceno vem agora chatear a gente com essa outra coisa? […] o djosa assim renegado e aviltado, murmurou que qualquer dia apareceria um defunto a pedir se calhar Roberto Carlos ou algum reggeae ou qualquer outra coisa assim.” (p. 17).
Finalmente, descobriu-se a solução, e o enterro acaba por se realizar, parodicamente capitulando o falecido à terra após toda a trama da música de fundo, cerzida ao mínimo pormenor: “Por razões de comodidade de transporte trocou o gira-discos por um gravador e gravou 120 metros de marcha fúnebre numa enorme bobine, repetindo-a 14 vezes. Mas nem foi preciso tanto porque a metade da sétima repetição ainda ia a meio quando ele mandou parar e abriu o discurso.” (p. 18).
Mas, se a ressuscitada vida do já morto dr. Napumoceno da Silva Araújo nos vai surpreendendo, bem como aos recém-aparecidos familiares, sem dúvida que um dos acontecimentos mais significativos da sua desaparecida existência consistiu na forma como enriqueceu e prosperou nos negócios. Talvez este seja um dos elementos temáticos fulcrais em que a ironia, que a escrita romanesca deste escritor constantemente encena, melhor se adequa às tradições da literatura cabo-verdiana: “Porque aconteceu que devido ao facto de o seu armazém ficar situado na zona de Salinas tinha necessidade de se deslocar muitas vezes debaixo do abrasador sol de Agosto, ainda por cima a pé porque nem tinha ainda carro nem aliás sabia conduzir. Decidiu por isso adquirir um guarda-sol.” (p. 59). Não encontrando em todo o Mindelo uma única loja que lho vendesse, o sr. Napumoceno resolveu fazer uma encomenda de 1000 guarda-sóis. Acontece que a nota de encomenda aparece com um zero a mais, e são desta feita 10000 “guarda-chuvas numa terra em que são utilizados como guarda-sol.” (p. 60). Após peripécias várias, chega o navio com a anunciada encomenda: “Porque o navio fundeou de manhã e perto do meio-dia começou a chover. Primeiro foi uma chuva miudinha embora persistente, uma morrinha de chuva como se lhe chamou e que levou o locutor da Rádio Clube Mindelo a noticiar que em S. Vicente chuviscava torrencialmente […]. E por uns oito dias a chuva caiu daquela forma bonita e útil, encharcando o chão, as casas e as ruas. E quando o último lote de 500 abandonou o armazém, o sr. Napumoceno mandou abrir espumante no Royal para todos os presentes, disse que estava a comemorar a retirada dos dez mil.” (pp.63-64).
Sem dúvida que a escrita de Germano de Almeida neste romance traz alguma coisa de novo à ficção cabo-verdiana. Diria, por exemplo, que uma necessária e bem-vinda distância e crítica que lhe permitem a ironia em jogo constante de antíteses hiperbolizadas —, a paródia e a desdramatização de temas antigos como a estiagem, o “flagelo” longamente contado das lestadas[1], os temas insulares que desde os claridosos repunham abordagens necessariamente dramáticas.
Reinterpretação e reescrita, agora sob um outro ponto de vista, em que o humor e a caricatura lembram herança queirosiana, retratando-se o meio mindelense e a vida insular com bem doseada carga de imaginação crítica. Este livro vem talvez confirmar, juntamente com outros textos que nos recentes anos têm sido publicados, que estamos a viver um novo momento de reformulação temática e formal nas literaturas africanas de língua portuguesa.
Ana Mafalda Leite, "Recensão crítica a O Testamento do Sr. Napumoceno de Araújo, de Germano de Almeida",
in: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 131, Jan. 1994, pp. 254-255, http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/do?issue&n=131


[1] vento quente que sopra em Cabo Verde, vindo do Saara.







A exposição é um tipo de discurso que tem por objectivo informar, definir, explicar, esclarecer, discutir, provar e recomendar alguma coisa, recorrendo à razão e ao entendimento.
O objectivo do trabalho agora proposto é fazer uma síntese interpretativa (a que também se chama resumo crítico) das ideias principais de um conjunto de capítulos de O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo de Germano Almeida.
Momentos específicos desta exposição oral:
1.  Reconhecer, genericamente, o ponto de vista do autor em relação ao(s) assunto(s) tratado(s) (o autor questiona, defende, é de opinião, propõe, nega, contradiz, etc).
2.  Estruturar as ideias fundamentais do texto, não obrigatoriamente pela ordem em que surgem no original, mas pela ênfase que nele assumem (ATENÇÃO: é obrigatório indicar sempre as páginas correspondentes a cada ideia exposta).
3.  Proceder à respectiva análise literária, a saber:
a) Estatuto e características do narrador. Tome atenção às marcas de linguagem reveladoras das atitudes subjectivas do narrador face ao que relata (uso de pontuação expressiva e de modalizadores – vocábulos que expressam certeza ou probabilidade; vocábulos que acarretam juízos de valor).
b) Personagens:
§   quanto à caracterização/composição:
– personagens-tipo, caricaturais (há? Quem são? O que representam?);
– personagens complexas (características físicas, psicológicas, sociais, ideológicas, morais);
§   quanto à participação na acção:
– protagonista (herói ou anti-herói?);
– antagonista;
– personagens secundárias.
c) Tempo, espaço e características do ambiente:
§   época em que se passa a acção;
§   duração da acção;
§   localização geográfica e respectiva caracterização do espaço
§   aspectos psicológicos, morais, religiosos;
§   aspectos sócio-económicos e políticos.
4.  Concluir a exposição oral de acordo com as ideias transmitidas e com o efeito e disposição que se pretende causar no auditório (o aluno pode manifestar explicitamente a sua opinião ou o seu julgamento acerca de algum aspecto que ache pertinente no texto em análise).
 Material auxiliar permitido: quadro e plano-guia.

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