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18.4.12

«corpus» complementar - Literatura Moçambicana





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 RUI NOGAR
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Francisco Rui Moniz Barreto, nasceu em Maputo (ex- Lourenço Marques) em 1932. Militante da Frelimo foi o primeiro secretário-geral da Associação de Escritores Moçambicanos. Silêncio Escancarado foi o seu único livro. Faleceu em 1993.



NA ZONA DO INIMIGO,


I
as instruções foram bem precisas
todos nós as compreendemos
camaradas

“permanecer no interior do país
cumprindo tarefas que vos daremos

guardar o santo e senha
que de Dar-es-Salaam vos irá
evelar a cada um
as fronteiras da humilhação
e depois a luta e a conquista
de novas zonas libertadas”

as instruções foram bem precisas
todos nós as compreendemos
camaradas

e aguardaremos ansiosamente
o mensageiro que já tardava



 
XICUEMBO
Eu bebeu suruma
dos teus ólho Ana Maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco

agora eu quero dormir quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer

suruma dos teus olhos Ana Maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus ólho Ana Maria
com meu todo vontade
com meu todo coração

e agora Ana Maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber

que meu Ana Maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor.



RUI KNOPFLI

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Nasceu em Inhambane, Moçambique. Poeta.  Jornalista. Sua estreia deu-se com o livro O País dos Outros (1959). Lançou, com João Pedro Grabato Dias, os cadernos de poesia Caliban (1971-72),  Trabalhou como adido de imprensa, na delegação portuguesa à Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque (1974) onde participa dos trabalhos da Comissão de Descolonização. Publicou Memória Consentida (1982) e em 1984 recebeu o prémio de poesia do PEN Clube.



TESTAMENTO,


Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que não me repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.



Lembrar…
“Um dia eu, que passei metade da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga de um monomotor ligeiro,
e subirei alto, bem alto, até desaparecer para além da última nuvem.
Os jornais dirão: cansado da terra, o poeta fugiu para o céu.
E não voltarei de facto.
Serei lembrado instantes por família, meus amigos,
alguma mulher que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores.
Então meu nome começará aparecendo nas selectas
e, para tédio de mestres e meninos,
far-se-ão edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.”
Ilha dourada

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio
As gentes calam na
voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da "Amizade"
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento



·         O Livro Fechado

Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"


Maxilar Triste 

Suave curva dolorosa
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.

Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza

irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:

espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.


LUÍS CARLOS PATRAQUIM


http://www.dglb.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/PublishingImages/Pr%C3%A9mio%20Cam%C3%B5es%202010/Luis-Carlos-Patraquim.jpg



Luís Carlos Patraquim (Maputo, 26 de Março de 1953) é um poeta, autor teatral e jornalista moçambicano.
Refugiado na Suécia em 1973, regressa a Moçambique em 1975, onde vai trabalhar no jornal A Tribuna. Encerrado o jornal, integra o grupo fundador da Agência de Informação de Moçambique (AIM) sob a direcção de Mia Couto.
De 1977 a 1986 trabalha no Instituto Nacional de Cinema de Moçambique (INC) como autor de roteiros e de argumentos e como redactor do jornal cinematográfico Kuxa Kanema.
Em conjunto com Calane da Silva e Gulamo Khan, coordenou, entre 1984 e 1986, a Gazeta de Artes e Letras da revista Tempo.
Reside em Portugal desde 1986.
Colabora na imprensa moçambicana e portuguesa, em roteiros para cinema e escreve para teatro.
É coordenador redactorial da revista Lusografias


Metamorfose
Ao Poeta José Craveirinha

quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância

sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícino e amendoim

percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS



CANÇÃO

Para a Paula
  
chegarei com as árvores
meu amor ao som do sangue
às catedrais do puro gesto
com o grito e as aves
marítimas dentro das sílabas
ao breve cume da espuma
mãos nas mãos chegarei

chegarei com as espadas
areia verde dó planície
ao tutano meu amor da fome
com os frutos nos teus olhos
amante vento à espera
ao sexo nuclear do mundo
nervo a água chegarei

chegarei nas manhãs suadas
da voz meu amor liberta
à nocturna onda do poema
com as aves dentro do grito
ou só marítimo eco
à raiz exígua dos cristais
morte a morte chegarei

chegarei de pé ao silêncio
que vaza meu amor nos rios
remo a canto deslumbrados
contigo ao princípio chegarei



·        SEBASTIÃO ALBA
O que restava do odre
Tu o bebeste
Dos veios mesmo da terra
Só um rio te contempla
zambeziando
E o mar se perde
Onde navegas
O que restava do odre
E deus
Apascentando a sua
sede
Onde te ris
Torre
E chama



·        COLAGEM
Uma girafa com búzios
ao pescoço
os lábios nos ramos altos
Rilham
E os espinhos macerados
Concedem à savana
O dorso crepuscular
Em que se fecha






·        AL-GHARB
Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras
Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres
Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo
E a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.




Muhipiti 

E onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como máos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. E onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira

de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
E onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
E onde me confunde de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. E onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.




  Luís Bernardo Honwana



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Luís Bernardo Honwana nasceu na cidade de Lourenço Marques (actualmente Maputo) em 1942. Cresceu em Moamba, no interior, onde seu pai trabalhava como intérprete. Aos 17 anos foi para a capital estudar jornalismo. Seu talento foi descoberto por José Craveirinha, famoso poeta moçambicano. Em 1964, Honwana se tornou um militante da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) que tinha como propósito conseguir a libertação de Moçambique de Portugal. Devido às suas actividades políticas, foi preso em 1964 e permaneceu encarcerado por três anos pelas autoridades coloniais. Após a independência, Honwana foi alto funcionário do governo e presidente da Organização Nacional dos Jornalistas de Moçambique. Desempenhou também funções de director do gabinete do Presidente Samora Machel e Secretário de Estado da Cultura.



NÓS MATÁMOS O CÃO-TINHOSO (excerto)

«O Cão-Tinhoso tinha uns olhos azuis que não tinham brilho nenhum, mas eram enormes e estavam sempre cheios de lágrimas, que lhe escorriam pelo focinho. Metiam medo, aqueles olhos, assim tão grandes, a olhar como uma pessoa a pedir qualquer coisa sem querer dizer.
Eu via todos os dias o Cão-Tinhoso a andar pela sombra do muro em volta do pátio da Escola, a ir para o canto das camas de poeira das galinhas do Senhor Professor. As galinhas nem fugiam, porque ele não se metia com elas, sempre a andar devagar, à procura de uma cama de poeira que não estivesse ocupada.
O Cão-Tinhoso passava o tempo todo a dormir, mas às vezes andava, e então eu gostava de o ver, com os ossos todos à mostra no corpo magro. Eu nunca via o Cão-Tinhoso a correr e nem sei mesmo se ele era capaz disso, porque andava todo a tremer, mesmo sem haver frio, fazendo balanço com a cabeça, como os bois e dando uns passos tão malucos que parecia uma carroça velha.
Houve um dia que ele ficou o tempo todo no portão da Escola a ver os outros cães a brincar no capim do outro lado da estrada, a correr, a correr, e a cheirar debaixo do rabo uns dos outros. Nesse dia o Cão-Tinhoso tremia mais do que nunca, mas foi a única vez que o vi com a cabeça levantada, o rabo direito e longe das pernas e as orelhas espetadas de curiosidade.»





A VELHOTA


Eu juraria que não cheguei a perder o conhecimento embora pouco antes de cair tivesse experimentado aquele estado de embotamento de sensibilidade que, quando nos toma, restringe a nossa capacidade de defesa aos gestos puramente instintivos mas estupidamente lentos, que todos conhecem nos boxeurs «grogues». Acho que ninguém podia avaliar o esforço tremendo que fiz nesses não sei se longos se breves momentos, para conduzir os meus punhos, brutalmente pesados antes de ganharem movimento e incrivelmente flutuantes depois de erguidos. Entretanto, às pancadas que recebia não se aliviava qualquer sensação física porque só lhes percebia o eco diluindo-se lentamente dentro da minha cabeça. Esse maldito eco e só ele é que foi o culpado de eu cair. Ë que atrapalhava-me muito e fazia com que antes de levantar um braço tivesse de pensar com força que tinha que levantar um braço. Caí lentamente, com plena consciência de estar caindo.
Primeiro senti-me quase bem no chão, embora o eco continuasse a encher-me a cabeça. Quando abri os olhos veio o zumbido e senti raiva de mim mesmo por ter caído. O eco atrapalhava-me a vista a tal ponto que não tinha a certeza do que via, mas depois, quando a minha vista deixou de tremer, vi as duas pernas vestidas de escuro, que, nascidas uma de cada lado do meu corpo cresciam longamente para cima, tesas e tensas, convergindo para a placa de metal brilhante do cinto. Por cima delas, lá em cima, perto da lâmpada do tecto, a cara fitava-me, atenta, sorrindo satisfeita. Voltei a fechar os olhos.
 Senti-me a tremer, mas o eco era mais suportável porque deixava de se processar desordenadamente para ser uma espécie de latejar. Só voltei a abrir os olhos quando tive a certeza de que o tipo já se tinha ido embora, farto de provar aos outros que realmente me batera.

 Eu precisava de ir para casa. Acho que já tinha vontade de o fazer antes mesmo de entrar no bar, por isso, o que aconteceu lá dentro não era o que me levava a ter tanta vontade de ir para casa. Não via a velhota e os miúdos, não sei desde quando, porque ultimamente voltava a casa muito tarde e saia muito cedo, mas não tinha bem a certeza de os querer ver mais alguma vez. A velhota era insípida e os miúdos eram chatos e barulhentos, sempre com porcarias para resolver. Claro que isso não era nada que se comparasse àquilo do bar, de há bocado, ou de todos os outros bares, restaurantes, átrios de cinemas ou quaisquer outros lugares no género em que todos me olhavam duma maneira incomodativa, como que a denunciar em mim um elemento estranho, ridículo, exótico e sei lá o que mais. Que nojentos! E eu sem poder rebentar exactamente por causa do raio da velhota e dos ranhosos dos miúdos!
Aquilo do bar, ainda há bocado, era afinal o que se passava: eu não consegui bater o tipo porque ele era todos os outros, e exactamente como isso é que ele me bateu. Não adianta contemporizar, tudo é a mesma coisa. Mesmo os que têm a mania de que fazem excepção só são isso em campos neutros ou quando tenham necessidade de vir até mim, porque, em volta deles edificam muros de tabus e defendem-se com os mesmos nojentos olhares enojados sempre que alguém vai para além desses muros. Eu que o diga!
 Eu precisava de ir para casa. Ia comer arroz e caril de amendoim como eles queriam que fizesse, mas não para encher a barriga. E precisava de ir para casa para encher os ouvidos de berros, os olhos de miséria e a consciência de arroz com caril de amendoim.
 Sentada na esteira a velhota estava quieta, a ver os miúdos a comer. De vez em quando levantava-se um e vinha trazer-lhe o prato de alumínio para ela servir-lhe mais. Foi de uma dessas vezes que a velhota deu comigo. Estava com a colher de pau erguida, cheia de arroz, e ia despejá-lo no prato, quando parecendo lembrar-se de qualquer coisa, se virou para a porta. Logo que me viu espreitou para o fundo da panela e perguntou-me se queria comer.
   — Ainda não sei se quero comer ou não — respondi.
 Virou-se para o lume, demorou-se um bocado a olhar para as chamas com a concha ainda no ar e depois perguntou:
   — Estás zangado? Estás tão zangado que não podes comer e nem sabes se queres ou não?...
   — Não, não estou zangado.
 A velhota pensou ainda um bom pedaço e resmungou:
   — Então está bem, se não estás zangado... E como ao dizer isto estivesse virada para o miúdo, perguntou-lhe como se isso lhe interessasse mais do que qualquer outra coisa.
   — Quito! O que é que tu estás para aí a mastigar sem parar, Quito?
  Antes que Quito desimpedisse a boca para poder responder, a Khatidja berrou lá do fundo:
  — Esse Quito está a mastigar a carne que roubou do meu prato sem eu ver! É minha, mamã! Chi? Quito, tu és um ladrão! — e voltando-se para mim — É minha, estou-te a dizer, Mano!
 O Quito mostrou na palma da mão tudo o que tirou da boca e admirou-se:
   — Esta carne, Kati, esta aqui? Foi a Mamã que me deu, estás a ouvir? — e para mim
   —Não foi, Mano?
 A essa altura já os miúdos estavam num berreiro desgraçado e a velha impôs-se:
   — Shhh!...
 Calou-se tudo num instante menos a Khatidja, que ainda choramingava:
   — É minha... É minha... Ele roubou! Chi! Quito não tens vergonha? Eu vi-te... Mas os outros miúdos ajudaram a velhota:
   — Shhh!... A Khatidja virou-se para eles:
   — Shhh!...
E desataram-se todos a fazer «shhh».
Com a colher de pau ainda erguida a velhota olhava para aquilo tudo. Depois os miúdos fartaram-se da brincadeira e voltaram a comer e o Quito pôs na boca tudo o que tinha na mão. Só então é que a velhota despejou a colher no prato do miúdo. Antes de lhe pôr caril pensou um bocado e voltou a servir-lhe outra e outra colherada de arroz. Quando o miúdo se ia embora perguntou-me com um ar distraído:
   — Mas é verdade que não sabes se queres comer ou não?
   — Bem, e se eu quiser? (Aborrecia-me aquela insistência, caramba!).
 A velhota pareceu ficar aflita. Espreitou para o fundo da panela e sorriu-se para mim como que a desculpar-se:
   — Ê que só há ucoco!
 Lá dos cantos os miúdos comentaram: Chi!! A ucoco?! O Quito fez «shh» e tudo se pôs a fazer «shh».
A velhota berrou e os miúdos continuaram a comer.
   — E então por que é que insistes em perguntar se quero comer? E o que é que tu vais comer?
   — Eu não tenho fome — respondeu a velhota.
   — Mas não há mais comida, não é isso?
   — Eu não tenho fome... Não tenho, juro que não tenho. Mas se tu quiseres faço chá num instante, queres?
   — Eu também não tenho fome.
   — Nesse caso faço chá para os miúdos, para eles tomarem, se continuarem com fome.
 Depois não me pude furtar ao impulso de abraçar a velhota. Ela manteve-se quieta quando enterrei a cabeça entre os seus seios. Rindo-se nervosa, protestou:
   — Mas tu não costumas fazer isso... E continuou a rir-se até ter coragem de me apertar nos braços.
   — Meu filho...
Senti-lhe os dedos ásperos a percorrerem-
-me timidamente ia cara. Depois beijou-me e riu-se muito. Ouvi os miúdos a rirem-se também.
 «Tu não costumas ser assim! O que é que foi... Meu filho... Meu filho... Tens fome? Queres que faça chá para ti?»
 Eu já não ouvia aquele tom de voz desde não sei quando e talvez nem me lembrasse de o ter ouvido alguma vez.
   — Bateram-te? Diz-me, meu filho, eles bateram-te? Quem foi?
   — Não, não me bateram.
   — Mas eles fizeram-te alguma coisa, não fizeram? Tu estás com raiva, não é?
 Tentei não falar, mas não tive tempo de pensar:
  — Eles destruíram tudo, eles roubaram, eles não querem...
 Senti-a prender a respiração e endurecer ligeiramente.
   — Não queres contar? Não? Não queres?
   — Não serve de nada. Os miúdos aproximaram-se:
  — Conta, conta...
   — Nada, vocês hão-de crescer, agora não chateiem.
   — Sim, meu filho, há o tempo, o tempo... Tudo há-de mudar, tudo há-de melhorar... E quando eles crescerem...
   — Hão-de crescer... Pois hão-de crescer nisto...
   — De verdade que não queres contar?
   — Conta, conta!—e os miúdos rodeavam-nos na esteira.
Não, eu não contaria. Não fora para isso que viera para casa. Além disso, não seria eu a destruir neles fosse o que fosse. A seu tempo alguém se encarregaria de os por na raiva. Não, eu não contaria.
   — Meu filho... Acho que me sobressaltei ao ouvir a velhota.
   — Meu filho, eu não entendo bem o que estas para aí a dizer, palavra que não entendo. Mas tu tremes, tu estás ou assustado ou muito zangado ou outra coisa qualquer, e o que tu dizes não é bom, porque estás a tremer, palavra que estás a tremer...
 Talvez a velhota tivesse razão porque deve ser raro a velhota não ter razão. Mas de toda a maneira isso não modificava nada. Eu não contaria e pronto; e ainda que contasse de que serviria isso? Sim, de que serviria, se a porcaria, o raio da porcaria daquilo tudo viria para aqueles miúdos com outros pormenores, em outras circunstâncias e com outros nomes?
   — Eh, vocês todos! Dormir, anda! Sim, dormir, o que é que estão a olhar? Dormir!... Mas... quem sabe? E também por que não acreditar? Por que não acreditar em qualquer coisa de giro? Como por exemplo que a formação dos miúdos fosse diferente da minha e que lhes conferisse uma condescendência para com aquelas coisas, uma condescendência que as minhas coordenadas emocionais não comportavam... E que talvez, eu sei lá, que talvez para com eles o tempo obrigasse a mais compreensão, mais carinho, sim, a mais humanidade... Porque talvez a velhota tivesse razão, há o tempo, o tempo...
   — Meu filho os miúdos já se foram...
  — Sim, eu vou dizer: eles bateram-me.
   — Quem foi? Mas isso não é tudo, tu tremes...
   — Sim, isso não é tudo. E até não é nada. Eles fizeram-me pequenino e conseguem que eu me sinta pequenino. Sim, é isso. Isso é que é tudo. E porquê? Eles nem o dizem de alto. E tudo cai, cai de repente, com barulho aqui dentro, e cai e cai e cai...
   — Bem, acho que o melhor é não querer saber disso para nada, porque não percebo nada do que tu dizes...
 Ficámos silenciosos os dois, e de tal maneira estávamos abraçados que não sabia se era realmente ela que tremia. Tenho a impressão de que só neste momento é que vi as chamas, embora estivesse há muito tempo a olhar para elas. O seu calor era bom e envolvia-nos, mas para isso elas torciam-se num bailado estranhamente rubro. Só deixei de as olhar quando a velhota falou duma maneira que me fez logo pensar que ela tinha estado um bom pedaço a matutar na maneira de me dizer qualquer coisa que afinal não disse. Acho que ela só disse:
   — Meu filho...






AS MÃOS DOS PRETOS
Já nem sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.
Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais claras que agoraé ver-me a não largar seja quem for enquanto não me disser porque é que eles têm as palmas das mãos assim tão claras. A Dona Dores, por exemplo, disse-me que Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa.
O Senhor Antunes da Coca-Cola, que só aparece na vila de vez em quando, quando as coca-colas das cantinas já tenham sido todas vendidas, disse-me que tudo o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei se realmente era, mas ele garantiu-me que era. Depois de eu lhe dizer que sim, que era aldrabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:
“Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Virgem Maria São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa altura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o céu, fizeram uma reunião e decidiram fazer pretos. Sabes como? Pegaram em barro, enfiaram-no em moldes usados e para cozer o barro das criaturas levaram-nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lugar nenhum, ao pé do brasido, penduraram-nas nas chaminés. Fumo, fumo, fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber porque é que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar enquanto o barro deles cozia?!”.
Depois de contar isto o Senhor Antunes e os outros Senhores que estavam à minha volta desataram a rir, todos satisfeitos.
Nesse mesmo dia, o Senhor Frias chamou-me, depois de o Senhor Antunes se ter ido embora, e disse-me que tudo o que eu tinha estado para ali a ouvir de boca aberta era uma grandessíssima pêta. Coisa certa e certinha sobre isso das mãos dos pretos era o que ele sabia: que Deus acabava de fazer os homens e mandava-os tomar banho num lago do céu. Depois do banho as pessoas estavam branquinhas. Os pretos, como foram feitos de madrugada e a essa hora a água do lago estivesse muito fria, só tinham molhado as palmas das mãos e as plantas dos pés, antes de se vestirem e virem para o mundo.
Mas eu li num livro que por acaso falava nisso, que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Vírginia e de mais não sei aonde. Já se vê que a Dona Estefânia não concordou quando eu lhe disse isso. Para ela é só por as mãos desbotarem à força de tão lavadas.
Bem, eu não sei o que vá pensar disso tudo, mas a verdade é que ainda que calosas e gretadas, as mãos dum preto são sempre mais claras que todo o resto dele. Essa é que é essa!
A minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão de as mãos de um preto serem mais claras do que o resto do corpo. No dia em que falámos disso, eu e ela, estava-lhe eu ainda a contar o que já sabia dessa questão e ela já estava farta de se rir. O que achei esquisito foi que ela não me dissesse logo o que pensava disso tudo, quando eu quis saber, e só tivesse respondido depois de se fartar de ver que eu não me cansava de insistir sobre a coisa, e mesmo assim a chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela me disse foi mais ou menos isto:
“Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho, Ele pensou que realmente tinha de os haver... Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para as casas deles para os pôr a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já não os pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituado a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exactamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes porque é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem, é apenas obra dos homens... Que o que os homens fazem, é feito por mãos iguais, mãos de pessoas que se tiverem juízo sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos”.
Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos.
Quando fugi para o quintal, para jogar à bola, ia a pensar que nunca tinha visto uma pessoa a chorar tanto sem que ninguém lhe tivesse batido.





Ungulani Ba Ka Khosa






Escritor moçambicano, de nome verdadeiro Francisco Esau Cossa, nascido a 1 de agosto de 1957, em Inhaminga, província de Sofala. Tirou o bacharelato em História e Geografia na Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane, exercendo a função de professor. Iniciou a sua carreira de escritor com a publicação de alguns contos e participou na fundação da revista Charrua na Associação de Escritores Moçambicanos, de que é membro. Tem publicado a seguintes obras: Ualalapi (1987), Orgia dos Loucos (1990), Histórias de Amor e Espanto (1999) e No Reino dos Abutres (2002).
Centrada sobre a crueldade e despotismo de Ngungunyane, o último Imperador de Gaza, Ualalapi, a primeira das obras citadas, foi distinguida, em 1990, com o Grande Prémio da Ficção Narrativa; em 1994 com o Prémio Nacional de Ficção e, em 2002, foi considerada como um dos melhores livros africanos do século XX.


UALAPI (excerto / 3)

«Uma chuva miúda acompanhou o barco até ao mar alto, fora do horizonte das pessoas que não ia muito além das poucas milhas da costa onde o mar glauco e revolto levantava ondas que se desfaziam nas pedras do pré-câmbrico, despojadas das suas escarpas que forram testemunhas de cenas várias, como a do viajante zarolho que por estas terras aportou com um volumosos manuscrito entre as mãos e que mais versos fez, cantando esta ilha enquanto saciava a sede e a fome que o atormentava, ante o espanto e a comiseração d s negras islamizadas em verem um branco esquálido, longe de saberem que aquele homem magro e famélico relançaria ao mundo uma terra que os pedestres de pés cambados a percorrerem numa semana sem outro esforço que olhar a paisagem.»






10.4.12

Excerto

MIA COUTO, in “MAR ME QUER”, com ilustrações de João Nasi Pereira, Caminho, 8`ed. 2004, breve nota por Lília Tavares


“Não sei por que Dona Luarmina chorou, quando lhe contei a história do meu velho. Se foi ela que me pediu! Eu lhe tinha avisado da tristeza dessa memória, mas ela insistiu. Foi só por isso que desatei as lembranças.



Meu pai se chamava Agualberto Salvo-Erro. Em tudo ele seria pessoa. Só um senão atrapalhava a sua humanidade: meu velho tinha olhos de tubarão. Não que fossem olhos de nascença. Aconteceu-se quando, certa vez, ele saltou do barco para salvar sua amada. Era uma moça muito nova que ele encontrara em outras terras. Trazia-a sempre no barco, em companhia das pescas. Fim do dia, antes de trazer o peixe à praia, meu pai encaminhava o barco para além do horizonte para ir deixar a moça. Quem seria tal rapariga, de onde era? Mistério que ficou e há-de ficar com Agualberto.



Nessa tarde, meu pai pescava próximo da nossa praia. O tempo estava encabrinhado. Eu apurava as vistas, tentando espreitar a figura dessa que acompanhava meu pai. Minha mãe virava as costas ao oceano.

- Já viu o pai, lá?

Minha mãe nada não respondia. Estava ocupada nas lenhas, no fogo, no jantar. Fiquei assim na berma da praia, olhando o concho1 alternando-se com o mar, visão e desaparência. Até que, de repente, notei um volto tombando no mar. Era a moça. Meu pai, em aflição, saltou em socorro dela. Mergulhou na fundura das águas e ficou dentro do mar mais tempo que um peito autoriza. Saíram os restantes barcos em salvação. Cotaram-se segundos, minutos, lágrimas, ninguém esperava que ele ressurgisse. Mas, para espantação e reza, meu pai golfinhou-se entre as ondas e gritou como se o céu inteiro lhe entrasse no peito. O povo clamava:

- Está vivo! Está vivo!

Os pescadores acorreram a recolher o ressurgido companheiro. Festejaram, dançando e cantando enquanto os barcos se faziam à praia. As mulheres xiculunguelavam2. Minha mãe avançou e se perfilou perante o homem. Que se passaria por detrás daquela aparência dela? Afinal, essa mulher que meu pai tentara salvar era uma outra, rival e ilegítima. Mesmo assim ela enfrentou meu velho. Seus olhos subiram do chão até se fixarem no rosto dele. Foi quando ela gritou, tapando o rosto com as mãos. Os restantes se aproximaram de meu pai e um rumor se espalhou como nuvem fria.

- Os olhos dele!

Sim, os olhos de Agualberto não eram os mesmos. Ninguém conseguia olhar meu pai de frente. Porque aqueles olhos dele estavam da mesma cor do mar: azuis, de transparência marinha. Sua humanidade estava lavada a modos de peixe. Ele ficara muitíssimo demasiado tempo debaixo do mar. E se espalhou um murmúrio de que Agualberto tinha os olhos de tubarão, tal iguais aos grandes e dentilhados bichos.

A partir desse dia meu pai se adentrou em si mesmo, toda a hora sentado na praia contemplando o horizonte. Passavam gentes vindas de longe para espreitar de longe o preto com olhos da cor do mar. Minha mãe, certa vez, me afastou por um braço, e sussurrou uma angústia:

- Essa mulher, outra, será mesmo que morreu de vez?



Todos sabíamos que sim, que ela se irremediara nos fundos, lá onde os corais florescem em peixes. Todos sabíamos menos o velho Agualberto, desguarnecido de noção. Todas as tardes ele levava para dentro do mar cestos com comida e rações de água doce. Mergulhava e se deixava em permanência alongada. Depois, regressava à superfície, satisfeito de tudo, medidas as contas com a saudade. De cada vez que vinha à tona, porém, seus olhos se exibiam mais azuis. Um dia se lavariam de toda a cor, como as conchas que esbranquiçam. Aquilo parecia aplicação de um presságio, um mapa de seu pensamento: perder as vistas como perdera seu amor. E assim aconteceu: Agualberto ficou de olhos deslavados e nunca mais visitou as profundezas das águas.



Quando o azul lhe saiu dos olhos também meu pai se emboreou de casa. Foi-se. Eu era menino, acreditava que tudo tinha remédio. A saída do meu velho foi a primeira crença de que certas coisas, nessa vida, não têm reparo. No mesmo tempo, tive que atender também o desjuízo de minha mãe. Ela não se conformou com aquele abandono. Porque já meu velho se retirara há muito e ainda ela me dizia:

- Espera, Zeca. Primeiro vou pedir as licenças a seu pai!

Houvesse injúria ou lágrima ela sempre me consolava:

- Deixe que eu vou queixar a seu pai!

Como se a partida dele fosse simples atraso de pescaria. Faz parte dos mandos: nunca se diz a um menino que ele é órfão. Assim, minha mãe vestia ausência com panos de mentira.

- Esta semana já escreveu cartinha para ele?

Eu sorria, triste. Mas ela nem me dava tempo.

- Seu pai haveria de ficar contente em ler um papelinho seu. Ele havia ficar contente a pontos de lágrima.

- Mas, mãe…

- Sabe: um dia, uma lágrima dele caiu lá no mar. Ali mesmo, naquela onda onde tombou, a lágrima mudou-se num coral e foi ao fundo. Escreva a seu pai…

- Mas eu mãe… eu nem sei as letras como são.

- Por isso, você vai ter com o padre, frequentar na missão. Seu pai, depois, lhe há-de mandar uns dinheiros.

- Está bem, mãe.

Depois, ela entrava na casinha, parecia atravessar a fogueira bem pelo meio das chamas. Fazia lembrar Maria Bailarinha, modos como ela se antigamentou dançando com o fogo. Mas minha mãe caminhava sobre as fogueiras e nada lhe acontecia. Sem vontade do tempo, eu ficava na praia a passear os olhos pela noite. Minha mãe voltava, tempos depois, e me dizia:

- Vê as estrelas, Zeca? Sabe o que elas dizem?

- Não, mãe.

- Sabe, filho, a noite é uma carta que Deus escreve em letrinhas miuditas. Quando voltar da cidade você me há-de ler essa carta?

-Sim, mãe.”

Nota de leitura


Mar me quer numa reedição de luxo
"Mar me quer", o conto que o escritor moçambicano Mia Couto escreveu em 1998 para a Exposição Mundial de Lisboa, foi reeditado pela Caminho. Desta vez as palavras de Mia vieram a público acompanhadas das ilustrações do pintor João Nasi Pereira.
Uma vez mais somos, em "Mar me quer", transportados para um espaço reinventado por Mia Couto. É nesse espaço, localizado no litoral de Moçambique, "um lugar arrependido de ser chão, convertido ao vai e vém das marés. Ali na dobra do Índico", que se passa a história de amor de Zeca Perpétuo, "um refomado do mar" e da sua vizinha, a mulata Dona Luarmina.
"Esta é uma história sobre a qual não é possível fazer grandes filosofias", defeniu o próprio autor. Mas é através do ondear das palavras e das imagens por elas construídas que percorremos, também, as recordações de infância do escritor, às quais "quer seja pelo exercício da escrita quer seja pela educação da infância, eu estou sempre regressando", como escreveu Mia Couto nas "Águas do meu princípio", um texto escrito por ocasião da Expo' 98 e que o autor relembrou no lançamento da nova obra.
Lado a lado, as ilustrações do pintor moçambicano João Nasi Pereira acompanham a história de Mia Couto. Para o artista esta ligação a Mia "é uma ligação de coração. É a ligação da terra", explicou.
"Através do encantamento da prosa de Mia Couto, uma prosa que é mais poesia que prosa, temos a visão de um filho de europeus sobre a África. Uma visão entranhada e africanizada que um desterrado, como eu, já perdeu. É uma forma tão sonhadora de ver a realidade que eu não consigo deixar de sonhar quando a leio". E, quando sonha, Nasi Pereira pinta.
"Porque é que gosto tanto do Mia?", questiona o pintor. A resposta surge pronta: "porque ele responde de uma forma exemplar às nossas grandes inquietações. É nos seus livros que encontro a tranquilidade possível e é por isso que fico profundamente alterado por ele me escolher para pintar os livros dele". E acaba por confessar que "gostava de pintar toda a obra de Mia".

Um sentimento de tristeza por e em Moçambique
Em Lisboa, na apresentação de "Mar me quer", Mia Couto fez questão de relembrar o assassinato do jornalista Carlos Cardoso, de quem era amigo, e a morte por asfixia de mais de 80 pessoas numa prisão moçambicana.
Para o escritor, "Moçambique está a viver um período triste". Sentimento que lhe provoca "esta espécie de desalento que me faz interrogar sobre que sentido tem isto de escrever", como acabou por confessar.
Mas a interrogação que faz não lhe tira a vontade de preencher novas páginas com a sua prosa, primeiro porque "não misturo as coisas", depois porque "sou sensível mas não sou frágil".
O lançamento de uma nova colectânea de contos nos meses de Abril/ Maio de 2001, vem comprovar as palavras de Mia Couto. Ainda este ano o autor não põe de lado a saída de um novo romance.


http://www.ccpm.pt/rev28_marmequer.htm

MIA COUTO

  FONTE: 

http://lusofonia.com.sapo.pt/LLP.htm
 
Índice



NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA

Nascido em Beira, Sofala, Moçambique, no dia cinco de Julho de 1955, António Emílio Leite Couto (Mia Couto) tem a sua primeira formação académica em Biologia. Fez os estudos secundários na Beira e frequentou, de 1971 a 1974, o curso de Medicina em Lourenço Marques (actualmente, Maputo), onde se vivia um ambiente racista muito vincado. Por esta altura, o regime exercia grande pressão sobre os estudantes universitários. O conjunto destas circunstâncias leva-o a colaborar com a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), partido marcado pela luta pela independência de Moçambique de Portugal.
Após a Independência Nacional, em 1975, ingressou na actividade jornalística, dirigindo três veículos de comunicação: Agência de Informação de Moçambique (1976 a 1979), Revista Tempo (1979 a 1981) e Jornal Noticias (1981 a 1985). Abandonou a carreira jornalística voltando a ingressar na Universidade para, em 1989, terminar o curso de Biologia, especializando-se na área de Ecologia. A partir daí mantém colaboração dispersa com jornais, cadeias de Rádio e Televisão, dentro e fora de Moçambique. Hoje realiza a sua profissão como biólogo na   área de estudos de impacto ambiental.
Mia Couto é hoje o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no estrangeiro e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal (num total de mais de 400 mil exemplares). Colabora desde a primeira hora com o grupo teatral da capital de Moçambique “ Mutumbela Gogo ” e escreveu (ou adaptou) diversos textos que foram representados por este grupo de teatro. Livros seus (como a Varanda do Franjipani e contos extraídos de Cada Homem é uma raça ) foram adaptados para teatro em Moçambique, Portugal e Brasil.  Em finais de Dezembro de 1979, no Casale Garibaldi, de Roma, representou-se a peça “A princesa russa”, adaptação para palco do conto com o mesmo título, incluído em “ Cada homem é uma raça”. Natália Luiza (do Teatro Meridional) em colaboração com Mia Couto fizeram a adaptação dramatúrgica de Mar me quer, que posteriormente editada, em 2001, pela Cena Lusófona.

Obras publicadas: 
Raiz de Orvalho – (poesia) Maputo: Cadernos Tempo, 1983. Publicado pela Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO). Livro intimista, lírico, uma espécie de contestação contra o domínio absoluto da poesia militante, panfletária.
Vozes Anoitecidas (contos) Maputo: Assoc. dos Escritores Moçambicanos, 1986.
Cronicando – (crónicas) Maputo: Notícias, 1986. Este livro reúne crónicas de Mia Couto publicadas na imprensa moçambicana no final da década de 1980.
Cada Homem é uma Raça –.(contos). Lisboa: Caminho, 1990. “Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia." (excerto de uma história do livro).
Terra Sonâmbula – (romance), 1992 Primeiro romance publicado por Mia Couto, tem como pano de fundo a guerra em Moçambique, da qual traça um quadro de um realismo forte e brutal.
Estórias Abensonhadas – (contos) Lisboa, Ed. Caminho, 1994. Livro de histórias que retrata o renascer do país depois da assinatura do Acordo de paz.
A Varanda do Frangipani – (romance) Lisboa, Ed. Caminho, 1996. O tema que se encontra subjacente nesta obra é do tráfico de armas, num período inicial de recuperação da guerra.
Contos do Nascer da Terra – (contos) Lisboa, Ed. Caminho,1997
Mar me quer – (novela) 2000. Este livro foi inicialmente incluído na Colecção 98 Mares, no âmbito da Expo 98.
Vinte e Zinco – (romance) 1999. Este livro surgiu de uma iniciativa da Editorial Caminho que visava assinalar o 25º Aniversário do 25 de Abril, estando, assim, relacionado com este tema. Vinte e cinco é para vocês que vivem nos bairros de cimento. Para nós, negros pobres que vivemos na madeira e zinco, o nosso dia ainda está por vir.” (excerto da obra).
O Último Voo do Flamingo – (romance) 2000
Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos – (contos) 2001
O Gato e o Escuro – (contos) 2001
Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra – (romance) 2002
Contos do Nascer da Terra - (contos) 2002
O país do queixa andar (crónicas) 2003
O fio das missangas  (contos) 2003
A Chuva Pasmada – (romance) 2004
O Outro Pé da Sereia – (romance) 2006

A CRIATIVIDADE TEXTUAL: MODO DE MOÇAMBICANIDADE
O fascínio que os textos de Mia Couto exercem sobre o leitor radica em quatro componentes fundamentais, que aparecem imbricadas:
1 — A criatividade e inventividade da linguagem, típica de escritores colonizados, terceiro-mundistas, que procuram afirmar uma diferença linguística e literária no interior da língua do colonizador, na esteira de James Joyce (irlandês), João Guimarães Rosa (brasileiro), Kateb Yacine (argelino) ou José Luandino Vieira (angolano).
Especificando a criatividade da linguagem, verifique-se que, a nível da sintaxe e do léxico, assenta, tal como acontece em José Luandino Vieira, na exploração das potencialidades estruturais do português, como da pressão que as estruturas e a fala das línguas africanas, sobretudo do ronga, exercem sobre a norma europeia, contribuindo para o desenvolvimento de uma norma moçambicana. A circunloquialidade das falas populares não deixa de influir nessa língua literária, que flexibiliza a frase e remodela as potencialidades da estrutura.
2 — O realismo no traçado de acções e caracteres, fornece um quadro rigoroso e impressivo (vigoroso) do social e do particular.
3 — A intromissão, de chofre, do imaginário ancestral, do fantástico, que transforma esse realismo quase social num imprevisto realismo animista (a expressão é dos angolanos Henrique Abranches e Pepetela), propenso à aproximação ao realismo mágico sul-americano (Gabriel García Marquez, Carlos Fuentes, etc.), este também decorrente do cruzamento da descrição pormenorizada de ambientes, caracteres e acções com o onírico e a imaginação populares.
4 — O humor, construído através da intriga, de situações e acontecimentos, de personagens e seus nomes, da narração, da linguagem, da enunciação. […] Humor que desdramatiza os episódios mais trágicos (a morte, a guerra, a repressão, etc.) e suaviza ou, pelo contrário, aprofunda a crítica social, ideológica e política.
É esse afeiçoar de linguagens, culturas e humores que Mia Couto entende como o projecto de moçambicanidade: «há este mosaico, não tanto de raças, mas de culturas, das culturas que estão a marcar parte de uma coisa que e ainda só um projecto: a moçambicanidade» (entrevista a Mia Couto in Público, 17-7-1990). (Pires Laranjeira, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, pp. 314-318 – adaptado)
BRINCRIAÇÕES
Num dos programas “Conversa afiada”, Maria João Avilez perguntava a Mia Couto se a reinvenção das palavras, que lhe é característica, seria uma forma de exaltar/honrar a miscigenação ou ainda de “arrumar” a língua. O escritor respondeu que o português, sozinho, não consegue transmitir a realidade africana; há que usar as potencialidades da Língua Portuguesa e trabalhá-las. «As alterações da língua portuguesa têm uma lógica que ultrapassa o domínio linguístico e que traduzem uma outra apreensão do mundo e da vida». (Cármen Maciel, “Língua Portuguesa: diversidades literárias – o caso das literaturas africanas”, 2004, http://www.socinovamigration.org/portallizer/upload_ficheiros/L%C3%ADngua%20Portuguesa,%20diversidades%20liter%C3%A1rias.pdf)
  
Mia Couto recria a oralidade […], através de uma língua literária sustentada por uma exuberante criatividade lexical[1] e uma sintaxe que faz a ponte entre a oralidade e a pura invenção, em que o contexto comunicativo, estético, possibilita a partilha da mensagem de ruptura[2]. As marcas fortes da oralidade estão igualmente presentes nas frases proverbiais, que definem uma atmosfera, um estado de espírito ou um saber sombrio[3]. (José de Sousa Miguel Lopes, “Cultura acústica e cultura letrada: o sinuoso percurso da literatura em moçambique” in http://www.catjorgedesena.hpg.ig.com.br/html/textos/miguel_lopes.doc)

 


[1] Alguns exemplos dessa criatividade lexical são apontados por Pires Laranjeira (1993): homenzarrou, depressou-se, fantasiática, carinhenta, esteirados, rebulir, estremungado, tropousar, manifestivo, estremexendo, nuventanias, febrilhante, deslembrara, sozinhidão, pertubabado, gesticalada, irmãodade, exuberrante, inutensílio, tintintilar, entrequando, esmãozinhado, exatamesmo, convidançante, mancha-prazeres, embriagordo, veementindo, atordoído, titupiante, inaposento, administraidor.
[2] É o caso apresentado por Pires Laranjeira (1993) através de alguns exemplos: “todos partiram, um após nenhum”, “o colar que foste dada”, “nem isto guerra nenhuma não é”, “parece está aqui enquanto nem”, “o lugarzinho no enquanto”.
[3] Entre essas frases proverbiais podem referir-se: “quanto tempo demora o tempo”, “a escuridão nos faz nascer muitas cabeças”, “no fundo da latrina não pode haver guerra limpa”, “o homem é como a casa: deve ser visto por dentro” (Laranjeira, 1993).



FORMAÇÃO DE PALAVRAS POR PREFIXAÇÃO
A inovação lexical produzida por Mia Couto, nas suas obras, não vem alterar as normas e regras de funcionamento da Língua. Por outro lado, recria, faz nascer palavras e significados que vêm provar que a Língua Portuguesa está em constante alteração e evolução, uma vez que, ao serem criados novos vocábulos, demonstra-se que a Língua possui uma diversidade inúmera de combinações não exploradas e que, a algumas delas, não estamos ainda sensíveis A Língua é um sistema infinito, daí que possa apresentar todas as oportunidades de reinvenção, recriação e combinação, facilitando o alargamento do léxico.
Verificamos que neste processo de formação de palavras podem existir várias formas de criação:
a) Palavras que usualmente não prefixamos: Mia Couto utiliza um prefixo como em Refaleceu ou Desressuscitado. 
b)Prefixar uma palavra que já é prefixada: por exemplo, formamos, a partir do substantivo comum feitiço o verbo enfeitiçar, Mia constrói o seu contrário e surge o verbo desenfeitiçar
c) A elisão de um prefixo onde, habitualmente empregamos dois: descaminhar no lugar de desencaminhar
d) A troca de prefixos, permanecendo a palavra com o mesmo sentido, como em inavergonhada, em que o prefixo in- substitui o des- de desavergonhada
Conclui-se ainda que, com este processo, é possível evitar construções negativas quando, na verdade, em apenas uma palavra, a negação está implícita na frase. (Ana Margarida Belém Nunes, "A (re)utilização da prefixação em Mia Couto", RUA-L (Revista de Letras da Universidade de Aveiro), nº 19-20, 2002-2003, pp. 85-98. http://www.ii.ua.pt/cidlc/gcl/)
FORMAÇÃO DE PALAVRAS POR AMÁLGAMA
Com a amálgama cria-se um maior número de combinações, jogos de palavras, recursos estilísticos (pleonasmos e metáforas, em maior escala) e, por outro lado, cada palavra passa a conter diversos sentidos, podendo ser entendida como uma pequena “estória”.
Consideramos que a leitura se torna atractiva quando existe este recurso à amálgama, fenómeno também conhecido por “cruzamento, blending ou contaminação”.
Seguindo a terminologia de Maria Helena Mira Mateus (1990: 415), a amálgama não é considerada um processo clássico de formação de palavras, mas contribui para a invenção de novos vocábulos e significados da Língua. Tal como a acronímia, a abreviatura, o empréstimo ou a extensão metafórica, a amálgama resulta de alterações sobre palavras existentes num processo de criação lexical. Nestes casos, as combinações são aleatórias no sentido em que “não é possível predizer as condições em que surgem, nem a forma que tomam, nem o significado que adquirem” (Mateus et al. 1990: 414-415).
Entende-se então que sendo a amálgama um processo de criação, o que Mia faz é, precisamente, criar vocábulos que lhe vão permitir transmitir todos os seus sentidos e/ou sentimentos, não ficando limitado pelo léxico existente, mas servindo-se deste para a sua própria expansão. De facto, este é um processo de inovação lexical que demonstra ser muito inovador, operando-se uma junção de palavras, todas elas conhecidas, mas coordenadas de forma singular, chegando a ser uma marca característica do escritor.
Existem diferentes processos de fazer esta concatenação perfeita de vocábulos que podem ser o resultado da combinação de palavras de diferentes classes gramaticais, obedecendo a diversas formas de sequências: a amálgama pode resultar da sobreposição de sílabas homófonas em fronteira de palavra ou de um truncamento num ou em ambos os elementos. Neste caso, pode aparecer truncada uma sequência mais ou menos longa no final da primeira palavra, ou em ambas. De um modo geral, os segmentos truncados não são sufixos, nem prefixos, nem radicais, isto é, não são unidades morfologicamente reconhecíveis. Muitas vezes, nas formações que são apresentadas, a amálgama resulta de uma fusão entre duas palavras que não se dá no final, nem no início, mas no meio das palavras (acabando por se aproximar da infixação), tornando-se assim, o novo vocábulo uma mistura perfeita dos dois que estiveram na sua origem.
Ainda em relação à classe gramatical das amálgamas, verificámos que estas adquirem a classe gramatical da última palavra por que são compostas. Tomando como exemplo o caso de arrumário, em que os elementos constitutivos são o verbo arrumar e o substantivo comum armário, reparamos que a nova palavra que foi formada assume a categoria gramatical deste último elemento, formando-se assim um novo substantivo. O mesmo acontece em variadíssimos exemplos: cabritroteavaV (cabritoN + trotearV), chamariscoN (chamarizN + iscoN), compaixonasseV (compaixãoN + apaixonarV), fosfogénicosAdj (fósforoN + fotogénicoAdj).
 (adaptado de: Ana Margarida Belém Nunes, “A leitura e des(re)construção das amálgamas de Mia Couto por alunos de PLE”, cadernos de PLE 3, 2004, Universidade de Aveiro. http://www.ii.ua.pt/cidlc/gcl/ e “Um Estudo da Amálgama e do seu Valor Metafórico em Mia Couto”. In: Actas del VI Congreso de Lingüistica General. Vol. 2 Tomo 1, Madrid: Arco Libros, 2007, pp. 1465-1474, http://sweet.ua.pt/~f711/ )
 
Proposta de trabalho:
1. Faça o levantamento de palavras na obra Mar me quer de Mia Couto onde tenha havido PREFIXAÇÃO (citar palavra + contexto) e explique o sentido adquirido.
           (
Prefixos: ante- des- entre- es- im-/in- ir- re- trans-) 
2. Proceda de igual modo relativamente às palavras onde tenha havido AMÁLGAMA e organize os conjuntos obtidos pelas respectivas categorias gramaticais: verbos, substantivos e adjectivos.
 
                                                                                                 

M A R    M  E    Q U E R
Mulata Luarmina e Zeca Perpétuo partilham território de vizinhança, chão de terra tão mais velho que eles, olhando o mar que é sempre quem mais viaja.
Luarmina ensombreada de um qualquer silêncio, que de tão longo parece segredo, entardece todos os dias na companhia de Zeca, ouvindo as histórias que vão povoando a paisagem.
Zeca Perpétuo sonha sempre o mesmo: se embrulhar com ela, arrastá-la numa grande onda que os faça inexistir.
Luarmina foi aprendendo mil defesas para as insistências namoradeiras de Zeca, mas um dia resolve negociar falas e outras proximidades, não em troca de aventuras sonhiscadas de Zeca, mas de suas exactas memórias.
E como diz o avô Celestiano "o coração é uma praia", em que o mar, porque nos quer, acaricia memórias e apazigua ausências.
Avô Celestiano é a sabedoria do tempo. Mas também é o fabricador de sonhos. Por via dos sonhos, ele visita os vivos e conduz, na sombra dos aléns, os destinos e os amores de Zeca e Luarmina.
"O que faz andar a estrada? … o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. … para isso que servem os caminhos. Para nos fazerem parentes do futuro." (Mia Couto, Mar Me Quer)
Teatro Meridional, Maio de 2001, http://www.cenalusofona.pt/edicoes/index.html
http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=4847
A trama narrativa de Mar Me Quer, em forma de novela, tece-se em pano africano com crenças e vivências de gentes moçambicanas que vivem no litoral de Moçambique e usam o mar para lhe roubarem o peixe que os alimenta. E é com o mar que se estabelecem relações de vida e de morte, é o mar que determina esse desenrolar de (a)casos fulcrais para as personagens. Desde logo o título da narrativa, Mar Me Quer, faz-nos desconfiar do decalque e do trocadilho em relação ao mal-me-quer da cantilena amorosa. Decalque justificado por ser uma das manias de Luarmina (uma das personagens principais) essa de desfolhar inúmeras flores ao fim de cada tarde na procura de um amor que lhe havia sido negado, enquanto vai pronunciando as palavras mágicas, como se descosturasse um pano nenhum. Ela e Zeca Perpétuo (a outra personagem principal) são dois pólos antagónicos dramaticamente presentes na construção da vida humana: o mar e a terra; o desejo de amar/ser amado e a impossibilidade de consumar esse amor; o passado e o presente na difícil conjunção de memórias e de sonhos; a dúvida da incompreensão ou do não reconhecimento dos símbolos e a certeza da tradição. Os oito capítulos em que esta estória se constrói outra coisa não são senão memórias que Zeca Perpétuo desfia em troca da ternura de Luarmina, enquanto esta desfolha pétalas de malmequeres na busca do amor perdido. (Fernanda cavacas, “Desfiar memórias como quem vai desfolhando flores (sobre Mar Me Quer, de Mia Couto)” in http://www1.ci.uc.pt/litafro/files_congresso/resumos.htm)
 MAR ME QUER: A OUTRA FACE DA LUA
A obra narra a história de dois vizinhos, já avançados no tempo. Zeca Perpétuo, para conquistar sua vizinha, Luarmina (luar-mina?), vai desfiando, a seu pedido, suas memórias, que ao final acabam entrelaçando-se na história dela, num enovelar de segredos entrançados que se vão sendo revelados ao mesmo tempo, durante a narrativa, ao leitor e ao narrador, resultando num desfecho surpreendente.
A maior parte dos encontros entre as duas personagens se dá num espaço intermediário entre um mundo interior e outro, exterior: a varanda da casa de Luarmina representa uma ponte entre o espaço interno da casa e a realidade fora dela. É ali que a personagem se senta a desfolhar intermináveis flores, num bem-me-quer, mar me quer que aguarda uma qualquer resposta, a realização de desejos enraizados num passado presente.
O título Mar me quer não é apenas uma variação poética dos versos “bem-me-quer, mal-me-quer”, com os quais as moças costumam indagar ao destino a verdade de um possível amor. A formulação insere na obra, já desde o início, a força movente do desejo que reconstrói mundos. Assim como o mar quer a terra e a busca em infinitos e entrecortados abraços, da mesma forma se coloca o desejo do homem pela mulher; também de completude é a relação de luz e sombra ou, se quisermos, razão e intuição. A relação entre as duas personagens centrais espelha o desejo de que se revele a face escura da lua, o lado avesso do homem, seu interior.
Para perpetuar-se, para tornar-se ele mesmo, Zeca Perpétuo necessita ser abraçado pela lunaridade de Luarmina, a vizinha costureira que será responsável por atar nele as duas pontas da vida.
Em Mar me quer, pode se encontrar alguns dos temas recorrentes na obra de Mia Couto, como o amor e a morte, perfazendo uma viagem através de fronteiras nas quais se distinguem e se mesclam as culturas negra e branca. Tudo isso vem embalado por murmúrios de um mar cujas ondulações conduzem a vida e o sonho dos homens.
O texto é composto de oito capítulos. Cada um deles é introduzido por um dos “ditos” do avô Celestiano, muitos deles supostamente baseados em provérbios da nação macua, uma das etnias mais antigas, ao norte de Moçambique. A personagem do avô, um mais velho, guarda a ligação com a herança ancestral na qual estão plantadas as raízes de um povo. Explicitados pelo narrador em primeira pessoa, os saberes dos antigos encontram-se espalhados ao longo de toda a obra.
Ao contrário do avô, a figura do pai é a do homem assimilado, que abandona os antepassados para entrar no “mundo dos brancos”. Essa traição não ocorre impunemente e, em decorrência disso, acaba por sofrer uma grande perda que carregará de arrastão a luz de seus olhos, obrigando-o a voltar-se para dentro de si em busca de antigas formas de conhecimento. Cego, o pai passa a ser venerado pela população local como um adivinho, atraindo a si pescadores que buscam a boa sorte nas pescarias.
A terceira geração que comparece na narrativa é a do filho Zeca Perpétuo, que vem a ser um amálgama das duas culturas – a negra dos antigos, e a branca, estrangeira –, simbolizando a interação, tantas vezes conflituosa, entre dois tempos diferentes; assim, o “antigamente” e a modernidade imbricam-se no presente da narrativa. A mistura de raças é também indiciada pela mulata Luarmina, órfã de rara beleza, que se fixara nas praias do Índico à procura do fio que a conduziria ao seu destino. É esse chão de mestiçagem cultural que torna possível o sonho, elemento utópico que torna-se o eixo fundamental da narrativa: “Quando não somos nós a inventar o sonho, ele é que nos inventa a nós.”
Moçambique é um território desenhado por muitas fronteiras que se mesclam chão a dentro, mar a fora, dando ao país um contorno multifacetado. Assim como a colonização portuguesa não teve forças para impor uma soberania no plano político – a ocupação do território moçambicano atingiu apenas uma estreita faixa no litoral sul, deixando intactos o interior e o norte do país –, também no plano cultural não conseguiu aniquilar as culturas das nações locais, dando origem a um rico mosaico cultural do qual pode nascer a novidade, sonho diurno a resgatar as bases de uma identidade necessariamente híbrida.
A obra de Mia Couto, no seu conjunto, revela a tentativa de delinear o rosto de Moçambique. Nela, o país é focalizado por personagens que, sem poderem dar conta das mudanças dramáticas da história, reinventam o cotidiano, sobretudo a partir de uma linguagem inovadora que tenta apontar para um devir em que se mesclam utopias e sofrimentos, muitas vezes transfigurados em maravilha. (Ana Claudia da Silva, “Mar me quer: a outra face da lua” in Via Atlântica nº 2 Julho 1999, http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via02/via02_21.pdf)
MAR ME QUER OU O CORAÇÃO É UMA PRAIA
Em Mar me Quer, obra editada aquando da última Exposição Mundial, em Lisboa 1998, e recentemente também em Moçambique, configura-se como tema central a relação do homem com o seu destino, mais precisamente, do pouco que sobre este podemos saber, da distância irremediável entre o que reclamamos e reconhecemos como nosso e aquilo que nos é dado viver.
Zeca Perpétuo e Luarmina, personagens à volta das quais se tece o conto, surgem-nos como peregrinos a caminho de um outro mundo. São-nos apresentados «a meio» da vida, a «meio» de um trajecto, de um percurso investido de um significado simbólico – ambos já ultrapassaram o seu tempo útil de trabalho e buscam re-encontrar-se agora, que deram pela presença um do outro. Luarmina, ancorada ao passado, ao amor perdido, à vida que não viveu, aos filhos que não teve, presa à realidade fantasiada e por isso nunca vivida porque nunca investida, é uma mulher triste, uma personagem dormente, presa a uma relação inacabada, suspensa. Contrariamente, Zeca Perpétuo vive para o presente, reinventando a realidade através do sonho, «ensinando o céu a sonhar», recriando a vida através do amor. As relações que as duas personagens estabelecem com as restantes estão, à partida, fragilizadas: a mãe de Luarmina morre de infelicidade pela beleza física da filha, «A mãe morreu pouco depois, não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha»; o pai de Zeca Perpétuo ilustrando todo um percurso de perdição.
As personagens revelam-nos a desagregação dos valores colectivos sob a pressão do tempo, a maternidade como valor principal na sobrevivência da sociedade, «Ela [Luarmina] queria ser outra coisa, queria crescer de si mais gente, ter filhos, nascer-se em outras vidas», o acto de sonhar como desejo de evasão e busca de uma outra realidade que não aquela de um país, Moçambique, ainda há bem pouco tempo palco de guerra, «Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós». Esta realidade só pode ser reabilitada através do sonho, onde o narrador oferece um corpo de personagens que não se conformam com a mesma «Me faz falta o sonho, tudo quanto queria era sonhar»; os sonhos surgem como a maneira mais profunda de conhecer o passado, «Neles, tais novos Argos, nós penetramos e ultrapassamos camadas e camadas duma outra água, inominável. Neles, unicamente podemos ver e captar os tesouros escondidos no seu fundo, como no fundo dum abismo, intangíveis, invioláveis. Recuperáveis somente nestes momentos do sono. Aí, unicamente temos uma outra força de visão, um outro poder, que é ignorado, recusado na vida acordada e quotidiana»[1]. É o ter de novo o que estava unicamente perdido; é igualmente viver o futuro inimaginável, mas que recolhe todos os sonhos e esperanças. O erotismo e a sedução feminina latente nas obras do autor, «Me entornei na toalha da água e fechei os olhos igual como ela. Minhas mãos fingiram ser caracóis, lesmas babadoiras lavrando nas coxas de Luarmina», ou «Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol?». Na repetição do pedido de contar estórias, estórias de vida, há como que «um indício, válido para o conjunto da obra, de que a emoção do sujeito, nostalgia como resultado de um luto, é condicionante da visão das coisas que a sua história oferece». E é essa nostalgia, unida a um imponderável sentimento de frustação, que nos leva a acreditar que pelos sonhos, pelas estórias sonhadas, conhecemos mais da nossa vida do que julgávamos conhecer na vida acordada.
A esperança e a crença nos espíritos, no Além, a convocação mágica do real, o relato de gestos rituais de aproximação ao sagrado, estão singularmente retratadas nas personagens Henriquinha, mulher de Zeca, e de seu pai, Agualberto. Ela, caracteriza-se por uma apetência consubstanciada na capacidade de sonhar, de olhar para o Além e o abismo surge como uma designação concreta para a morte, a outra Vida. A sua dança estonteante no cimo da Duna Vermelha, tanto pode exprimir a certeza da existência do Além, libertação das forças mágicas que dormitam no interior do ser, como também traduzir apenas a confiança e a esperança do ser humano, num mundo desajustado. A sua reencarnação em pássaro, uma gaivota, ave marinha, transforma-a numa continuação de algo, numa sobrevivência perante algo, que a libertará, «Empurrei-a. Não escutei nem grito nem baque de tombo, vindos das rochas em baixo. Apenas estridência de gaivota roçando o barranco». Nele, vivendo a espantosa revelação da «existência das coisas em si», reconhece-se a sacralidade das mesmas, do Universo. As oferendas deitadas ao mar, símbolo de vida, morte e regeneração, resumem todo um tempo e um espaço que se querem sagrados. A aceitação pacífica da morte é-o porque vista pelo lado da tradição. A demorada despedida trai todo o esforço de racionalização para quem se coloca do lado do corpo, esse mesmo corpo que, chegada a sua hora, calmamente se vai despedindo em cada símbolo africano. A morte surge-nos como a mais directa e importante mensageira da transcendência; o encontro da personagem com o seu ser passa pela descoberta da relação justa com a Natureza e pela fidelidade a determinados valores da tradição. Agualberto Salvo-Erro aceita a morte como uma «navegação», entrando no mar, retorno ao elemento original, fonte e símbolo da vida, «Agora vou para o outro lado do mar».
«Quem procura a sua verdade, não ignorando a ambivalência de sentimentos e impulsos por que se pauta a nossa complexa humanidade, maculada, mas distinguida pelo anelo de uma pureza e integridade que a excedem, erigisse em símbolo privilegiado, o elemento que, identificando-se com a origem da vida, a água, é meio de purificação e regeneração, detendo um poder soteriológico»[2]. Agualberto entrega o seu corpo ao mar e tem como referência o seu horizonte. A sua rota está definida por essa linha que nunca se fecha e que, se é separação, é-o também abertura, acesso (o Além).
Tem-se, pois, a percepção de um real «imaterial», fluído como as águas, perdido no seu curso incessante. Por essa razão, os dois mundos comunicam entre si por meio de sinais e projectam os seres nesse Além que só o horizonte pode prometer. A água convida à contemplação e a imagem formada é sempre aquela do sonho: a figura de uma mulher, Luarmina, ideal comum a Zeca Perpétuo e seu pai, que perfigura a visão do todo inalcançável. Há como que a ressonância de um sonho, a imagem de uma beleza feminina que tentou dar solidez ao mundo vazio do exterior. Luarmina é a mediadora entre o homem e o universo, «l’ image même du secret, des grands secrets de la nature»[3]. A anima, o arquétipo do feminino ou a feminilidade inconsciente do homem está no mar «E, conduzido pelo amor, o homem percorrerá esse longo caminho cujo fim é a própria unidade, o chegar a ser de verdade ele próprio»[4]. Zeca Perpétuo verte-se de si mesmo, encontrando-se, «Meu pai afinal, me estava dizer o quê? Que trazemos oceanos circulando dentro de nós? Que há viagens que temos que fazer só no íntimo de nós?» ou, como sonha o narrador «como se o mar ensinasse, por fim, minhas lembranças a adormecer, como se a minha vida aceitasse o supremo convite e fosse saindo de mim em eterna dança com o mar».
Poeta da água, Mia Couto apoia-se nela sempre que tematiza experiências de vida de grande intensidade emocional. É-o, à maneira de Cinatti, «Orvalhado pelo mistério, por exemplo, numa recuperação do valor simbólico de regeneração e purificação da água, manifestação da graça divina ou anúncio de uma realidade em geral evanescente, mas pura, por que se anseia»[5]. É Teixeira de Pascoaes que nos revela «Somos uma onda, que é um atlântico banhando todas as praias»[6]. O Poeta moçambicano evoca o Índico dando vida e sentido ao provérbio macua «O coração é uma praia».
O movimento da água é a metáfora de um mundo que nunca é, de um mundo que adquire o aspecto virtual. Quem lhe dá «forma» é o Poeta, através da capacidade de sonhar. Por detrás das palavras, há sempre uma indagação, uma procura, uma força renovadora da água, portanto da vida. (Maria João Coutinho, “O Mundo Ficcional de Mia Couto – Mar me Quer ou O coração é uma praia”in http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=635)
PROPOSTA DE TRABALHO:

1. Elabore uma dissertação sobre o seguinte tema: as várias identidades de Luarmina[7]
2. Disserte acerca das possibilidades narrativas/interpretativas de MAR ME QUER decorrentes da desconstrução do nome próprio LUARMINA
3. Reconte a estória de Agualberto Salvo Erro.




[1] Dalila Pereira da Costa, Os Sonhos, Porta do Conhecimento, Porto, Lello & Irmão, 1991, p. 7.
[2] Soteriologia: parte da teologia que trata da salvação do Homem.
Maria João Borges, Em Torno do Conceito de"Poesia Pura": Cinatti, Sophia e Eugénio de Andrade, p. 237, citando Alain Gheerbrant, Jean Chevalier, Dictionnaire des symboles, pp. 374, 382.

[3] André Breton, Arcane, 17, Paris, s.d., p.93.
[4] Maria Zambrano, O Homem e o Divino, Lisboa, Relógio d' Água, 1995, p.236.
[5] Maria João Borges, pp. 236-237.
[6] Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal, Lisboa, Ed. Europa, 1937, p.87.
[7] A mulher bela (Luarmina quando jovem); Luarmina freira; Luarmina gorda e mulata; Luarmina sereia; e a mulher que desejava ter filhos.