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13.2.12
12.2.12
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PEPETELA
ÍndiceVida e obra de Pepetela
A Montanha da Água Lilás: fábula para todas as idades
VIDA E OBRA DE PEPETELA
Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que assina sempre como Pepetela (Pestana, em umbundo), nasceu em Benguela, em 29 de Outubro de 1941. […]
Em 1958, foi estudar para Lisboa, passando a intervir na CEI [Casa dos Estudantes do Império], colaborando nas suas publicações.
Com a luta armada de libertação nacional (1961), um ano depois (1962), seguiu para o exílio em França, acabando finalmente por ficar mais um tempo na Argélia, que, entretanto, acedera à independência, precisamente através de uma guerra de libertação nacional. Aí formou-se em Sociologia e, no Centro de Estudos Angolanos que os nacionalistas haviam instituído, dedicou-se a escrever, com Costa Andrade e Henrique Abranches, para o MPLA, uma História de Angola, numa perspectiva resumida e revolucionária.

No final dos anos 60 (1968-69), foi integrado, como Secretário Permanente de Educação, na Frente de Cabinda da guerrilha. Em 1972, passou para a Frente Leste. Em 1973, era Secretário Permanente do Departamento de Educação e Cultura. Em 1974, fez parte da primeira delegação do MPLA em Luanda. Em 1975, tomou-se director do Departamento de Orientação Política e, logo depois, integrou o Estado Maior da Frente Centro. Entre 1975 e 1982, foi o vice-ministro da Educação. De então para cá, deixou de desempenhar cargos políticos e é docente da Universidade de Angola (Sociologia), além de ter pertencido à Comissão Directiva da União dos Escritores Angolanos (UEA). […]
Antes de mais, note-se que é um escritor que produziu a sua obra, até à independência, na situação sócio-histórica de diáspora e guerrilha, ou seja, na mais pura liberdade de expressão, ao contrário de homens como Luandino Vieira, que estava preso, ou Arnaldo Santos, que, sendo funcionário público, vivia e publicava com as limitações da situação de ghetto, na Luanda dos anos 1960 e começos de 1970. [Entre vários prémios, recebeu em 1996 o Prémio Camões, o maior galardão literário dedicado à Literatura em Língua Portuguesa, e em 2007 o Prémio Internacional da Associación de Escritores en Lingua Galega (AELG) que o designou “Escritor Galego Universal”, “galardón que naceu para significar aqueles autores e autoras cuxa obra e personalidade conteñan un alto contido ético e estético que os/as convirtan nun referente para o seu pobo na defensa da dignidade nacional e humana”.
Pepetela é o primeiro escritor de língua portuguesa e também o primeiro africano a receber tal distinção.
Vejamos as obras:
Muana Puó - Romance escrito em 1969 e publicado em 1978.
Mayombe - Romance escrito entre 1970 e 1971 e publicado em 1980.
As Aventuras de Ngunga - Romance escrito e publicado em 1973.
A Corda – Teatro político, peça escrita em 1976 e publicada em 1978.
A Revolta da Casa dos Ídolos – Teatro histórico, peça escrita em 1978 e publicada em 1979.
O Cão e os Calus – Novela picaresca escrita entre 1978 e 1982 e publicada em 1985.
Yaka - Romance escrito em 1983 e publicado em 1984 no Brasil e em 1985 em Portugal e em Angola.
Lueji, o Nascimento de um Império - Romance realista animista escrito entre 1985 e 1988 e publicado em 1989.
Luandando - Crônicas sobre a cidade de Luanda escritas e publicadas em 1990.
A Geração da Utopia – Publicado em 1992, este romance escrito em quatro partes, que se passam em períodos de dez anos. Uma primeira parte em 1961 com o início da luta armada. Uma segunda parte em 1972, escrita na Frente Leste e sobre a guerrilha. O Polvo é a terceira parte, passa-se nos anos 80 e a última parte e passa-se nos anos 1991-92, já depois dos acordos de Bicesse.
O Desejo de Kianda - Romance escrito em 1994 e publicado em 1995.
A Gloriosa Família, o Tempo dos Flamingos - Romance publicado em 1997.
A Parábola do Cágado Velho - Romance. Começou a ser escrito em 1990 e foi publicado em 1997.
A Montanha da Água Lilás, fábula para todas as idades - Romance publicado em 2000.
Jaime Bunda, o agente secreto - Romance policial publicado em 2002.
Jaime Bunda e a Morte do Americano - Romance policial publicado em 2003.
Predadores - Romance publicado em 2005
Os dois primeiros livros demoraram a ser publicados. O caso mais notório é o seu primeiro romance, Mayombe, sobre a guerrilha na floresta do mesmo nome, ao norte de Angola, na região da Frente de Cabinda, que apenas com a intervenção do Presidente Agostinho Neto (um dirigente e poeta que não gostava do realismo socialista) conseguiu autorização para sair do prelo. É um romance em que a personagem principal, um líder guerrilheiro, o Comandante Sem Medo, qual Ogun ou Prometeu africano, leva por diante o seu trabalho no meio de grandes e compreensíveis dificuldades, agravadas pela corrupção interna, o tribalismo, o racismo, o oportunismo e outros males universais, duvidando seriamente do triunfo da revolução em armas, acabando por morrer. Pepetela atrevia-se assim a questionar a construção de imagens de heróis monolíticos, aplicando à ficção a fecundidade da dúvida sistemática, como quando insinua, através de Sem Medo, que o poder da guerrilha de libertação nacional já transporta cm si o ovo da serpente do poder que, após o triunfo, dominará o povo que ajudou a libertar.
As aventuras de Ngunga é duplamente um romance de aprendizagem, um Bildungsroman, pois a personagem central, Ngunga, um rapazinho, um pioneiro, militante infantil, cresce integrado na luta de libertação nacional, aprendendo a vida, vivendo a política mas o romance foi escrito também com a intenção de servir de livro de texto na alfabetização dos intervenientes e apoiantes da guerrilha, tendo a primeira edição corrido mimeografada.
O primeiro livro escrito após a independência partilha, com tantos outros, a exaltação do momento, a missão ideológica e a apologia do poder triunfante. Na curta peça A corda, encena-se a aversão ao espantalho do imperialismo norte-americano, representado por um cidadão gordo, fumando grosso charuto, com ar de yankee hollywoodesco, loiro, olho azul, etc., apresentado como estereótipo do mal e bombo da festa.
Livro importantíssimo para a interpretação do pensamento crítico de Pepetela no tocante à política do seu país é A revolta da Casa dos Ídolos […]. Num breve resumo, podemos dizer que Pepetela encena um episódio relativo à História de Angola do tempo da primeira colonização (séc. XVI), para aludir subrepticiamente à época em que vive. Assim, a peça trata de uma revolta popular contra os padres portugueses e os seus aliados Manicongos (chefes do Reino do Congo) que resolveram proibir o culto animista dos fetiches (os «ídolos»), guardando-os numa casa, afinal um pretexto para a contestação do poder dos dirigentes do Reino. Um jovem ex-Mani, agora ao lado do povo, dirige a revolta, que falha, sendo morto.
A peça foi escrita em 1979, dois anos depois da falhada tentativa de golpe de Estado de Nito Alves. um ex-chefe guerrilheiro célebre que, após a independência, ganhou um grande apoio popular nos musseques de Luanda, sobretudo entre a juventude. e pretendia o saneamento do aparelho de Estado e do MPLA para levar a revolução popular ao poder, quando se estava em guerra contra vários inimigos. Abortado o golpe, como na peça, sucederam-se as perseguições, prisões e execuções sumárias, como publicitou Felícia Cabrita, num artigo no semanário Expresso (Lisboa, 25-01-1992), resultando num banho de sangue que teve a conivência das altas instâncias do Partido e do Governo, incluindo o Presidente. Calculam-se entre 20 e 30 mil mortos, em grande parte em valas comuns. Muitos dos apoiantes de Nito Alves eram quadros jovens, trotskistas, maoístas, anarquistas e de outras correntes não toleradas ou muito mal vistas pelo novo poder hegemónico. A peça de Pepetela pode ser entendida como uma parábola sobre esse sangrento 27 de Maio de 1977 que abalou e traumatizou a sociedade angolana.
Pode perguntar-se porque é que o escritor — que, como vimos, já tinha antecedentes de dúvidas heterodoxas, em Mayombe — não abandonou o poder, uma vez que era vice-ministro da Educação. Por isso, é legítimo questionar se ele pode desempenhar o papel de reserva moral da Nação ou de advogado do diabo sem nunca ter seguido o caminho do exílio. Por outro lado, sair de Angola seria dar trunfos a movimentos que, como a UNITA, eram apoiados, nesses anos, pela África do Sul e os Estados Unidos, para, a qualquer preço material e humano, desalojarem o MPLA do governo. Ele mantinha uma reserva crítica, distanciando-se do poder, mas não se transferia de campo político, salvaguardando uma profunda ética e coerência de escritor crítico e todavia solidário. Além disso, segundo outra óptica, o chamado fraccionismo de Nito Alves desagradou, de facto, à sociedade dirigente e possidente de Angola, pondo em perigo a coesão nacional e a própria independência, ao fazer parcialmente, mas de modo objectivo, o jogo da UNITA, África do Sul e Zaire, nessa época interessados na total desarticulação do país.
Continuando a viver e a escrever em Luanda, Pepetela voltou a um livro (Yaka) justificativo da legitimidade do poder negro como componente fundamental da angolanidade.
O sentido do romance aponta para uma crítica decisiva aos brancos de Benguela e suas concepções ideológicas e políticas, comportamento, ambições, que os tornam broncos e gananciosos. Certas figuras de brancos (Acácio, Joel, Alexandre, Chucha) são tratadas com desvelo, mas acaba por sobressair o peso do mundo negro (revoltas, vitórias, heróis, Yaka, mártires como Morna, etc.). Todavia, já no final do romance, o revolucionário da família, Joel, interpreta o significado do sorriso irónico da estátua e torna-se na encarnação viva daquilo por que Alexandre ansiara subconscientemente durante toda a vida. Podemos interpretar tal episódio como a justificação de um lugar para os brancos na nova sociedade angolana: a favor da independência, com o MPLA.
A partir do próprio título, o mundo negro detém um capital simbólico de poder ancestral, histórico e cultural. O mundo branco, embora predominando em boa parte da narração e do espaço físico e social, não consegue compreender, dominar por inteiro ou aceitar esse mundo negro.
Yaka oferece a possibilidade de servir como ilustração da época decisiva da colonização portuguesa em Angola. Permite, por isso, imaginar ficcionalmente os sobressaltos experimentados pelos colonos face à presença obsidiante do mundo negro e suas revoltas. Embora sendo um romance fértil em episódios, referências e alusões históricas e étnicas, que pode chegar a confundir um leitor desprevenido, é inegável o valor didáctico que apresenta. Saliente-se que, para uma visão ficcional mais alargada e multímoda da colonização no sul de Angola, convirá sempre tomar em linha de conta a projectada pentalogia de Leonel Cosme, cuja acção decorre fundamentalmente na Huíla, de que saíram três volumes: A revolta (1963; 2ª ed. rev. e aumentada, 1983); A terra da promissão (1988) e A hora final (1992).
O cão e os calus aparece como divertida crónica de humor, em que se incorpora a tensão da busca, pelo pastor alemão, da mirífica imagem da perfeição, por entre um rol de imperfeições. A edição portuguesa chamou-se, para melhor compreensão, O cão e os caluandas (os caluandas são os habitantes da Ilha de Luanda, os primordiais, que deram nome aos da cidade). O picaresco do pastor alemão que perambula por Luanda à procura da toninha ou da sereia (apelo da utopia), estacionando onde mais lhe apraz, para logo desarvorar em busca de novo dono e da solução para o seu instinto de busca, serve para criticar a sociedade da capital, paradigmática da sociedade angolana, vivendo de expedientes e malandragens, abusos politiqueiros e oportunismos carreiristas, especulando e corrompendo.
Em Lueji, Pepetela retomou a lenda de Ilunga e Lueji na Terra da Amizade, localizada na Lunda e contando a história da sua fundação, que foi beber ao livro em que Henrique de Carvalho relata a expedição, nos anos 80 do séc. XIX, ao Muatiânvua, depois retomada por Castro Soromenho num dos seus longos contos de aproveitamento de lendas e histórias fundadoras. Esse fundo histórico e lendário serve de contraponto e de húmus para a personagem da actualidade, dessa relação entre o passado e o presente emergindo a explicação de atitudes e sentidos.
No romance A geração da utopia defrontamo-nos com o balanço da geração da CEI e da guerrilha, que fizeram a revolução, para se concluir que, independência à parte, os sonhos ficaram pelo caminho, de momento irrealizáveis — momento esse parecendo não ter fim. É o romance amargurado da distância entre a esperança de uma sociedade e um homem novos e a realidade da guerra, da morte e da miséria. (Pires Laranjeira, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, pp.144-147 e 159, adaptado)
O Desejo da Kianda será um livro datado como o Cão e os Calús. E é uma obra de desmoronamento. Desmoronamento físico da cidade, onde os próprios prédios vão desaparecendo, e o desmoronamento moral, a corrupção, a forma como as pessoas vão sendo devoradas pelo processo. A força do "fim", do perder de valores tanto das sociedades tradicionais como da sociedade urbana. Pepetela reflecte sobre o desaparecer da solidariedade, da incorruptibilidade, a que leva o descalabro social, e esta mensagem é tão grande que a obra sugere mais o explodir do desencanto interior do que uma intenção crítica. "Eu tenho esperança nas pessoas. Nos sistemas não, mas nas pessoas sim. As pessoas são solidárias...É o que resta no fim. Eu acho que a obra aponta ainda um caminho a seguir, apela a uma nova revolução, embora agora em termos diferentes." - Pepetela.
Em A Parábola do Cágado Velho Pepetela volta a um caminho que se anuncia em Muana Puó e que é o percurso de dialogar com os velhos mitos angolanos. É novamente um trabalho muito ligado às tradições angolanas. Outra analogia que podemos encontrar é o facto de voltarmos a ter, nesta obra, uma estória de amor num cenário de luta, o cenário angolano depois das eleições de 1992 com o eclodir da guerra, é a marca que o autor transporta nesta obra embora o livro não se refira nunca a uma época específica. Nesta obra temos a guerra em Angola vista pelos olhos do camponês. O livro traz-nos todas as culturas misturadas, sem qualquer preocupação de enquadramento histórico ou geográfico. A obra faz muito recurso a partes das culturas africanas. Todas misturadas."Está tudo subvertido naquele livro, até a geografia...de propósito. É um microcosmo que representa o país." - feito por Pepetela este retrato de Angola, talvez na intenção de retratar uma identidade e de frisar que as misturas culturais angolanas não se fazem só nas regiões urbanas. A Parábola do Cágado Velho : uma estória, como um grande rio onde outras estórias se misturam e se resolvem.
Em A Montanha da Água Lilás, fábula para todas as idades, o escritor angolano Pepetela conta a estória de uns seres cor laranja, os Lupis, que pensavam, falavam e trabalhavam como os homens. Mas “não são homens, porque se chamavam Lupis”. Certo dia, os lupis descobrem uma fonte de um misterioso líquido, cujo perfume é inebriante - a água lilás. E deixaram de viver em perfeita harmonia... Este livro, não é apenas uma fábula para todas as idades, tal como o subtítulo parece indicar, é um retrato (in)temporal da sociedade humana, e da crescente desigualdade social. http://literaturaemanalise.blogspot.com/2006_02_01_archive.html
Ao publicar Jaime Bunda, agente secreto em 2001, Pepetela realizou um sonho de infância: escrever um romance policial. Este desejo é resgatado por este texto, o primeiro, aliás, nesta modalidade na literatura angolana. Nele, a trama ficcional constrói-se em torno do detective Jaime Bunda, negro lerdo e de abundantes carnes que somadas ao seu desempenho medíocre em jogos de vólei da infância lhe valeram o singular apelido. A personagem, no entanto, devoradora de novelas policiais, aceita-o como sobrenome por acreditar-se, assim, mais próxima de James Bond, o agente secreto britânico, paradigma de excelência em espionagem e na sedução feminina. A necessidade de aproximação a este ícone da literatura e da cinematografia detectivesca faz com que Bunda não hesite tampouco, tal como o herói britânico, em apresentar-se como Bunda, Jaime Bunda .
O sucesso do romance e o surgimento de muitos outros dilemas dignos de investigação na sociedade angolana levaram Pepetela a, em 2003, lançar Jaime Bunda e a morte do americano. Neste romance, o agente secreto dos SIG Serviços de Investigação Geral, a polícia das polícias, desloca-se de Luanda, capital do país, uma “Manhattan hiperbolizada” para a provinciana Benguela, a cidade das acácias rubras, a fim de elucidar o possível assassinato de um cidadão norte-americano. Homicídios são, portanto, os elementos desencadeadores das duas narrativas, visto que em Jaime Bunda, Agente Secreto, a morte de uma jovem de catorze anos de idade é o ponto inicial de uma investigação que toma contornos insondáveis, revelando crimes de maior gravidade em Angola. No segundo romance, Jaime Bunda e a morte do americano, Pepetela retoma um tema conhecido no país: o assassinato, nos anos 50, de um engenheiro português em circunstâncias idênticas às enunciadas no romance. A estratégia ficcional de resgatar um evento ocorrido meio século atrás faz valer a quase epígrafe usada por este autor no romance A Geração da utopia de que “só os ciclos são eternos” e, por isso, fatos do passado são recorrentes e podem servir de reflexão e questionamento aos enigmas do presente. […]
Nas duas narrativas, Jaime Bunda tenta ávida e obtusamente usar o conhecimento oriundo da ficção policialesca no quotidiano de seu trabalho numa das muitas repartições da máquina estatal angolana. Pensa ainda poder empregar ali a mesma lógica que crê existir nas personagens dos romances de sua predilecção, o que constitui motivo de riso e de escárnio de seus companheiros de equipa e, em segunda instância, do narrador e do próprio leitor. […] (Robson Lacerda Dutra, “Detectives, crimes e enigmas: a questão social sob lentes de aumento da investigação policial”, VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, Coimbra, Universidade de Coimbra, 2004, http://www.ces.uc.pt/lab2004/inscricao/pdfs/painel46/RobsonDutra.pdf)
Predadores – Podemos inventar um passado, um pai e até um ideal para subir na vida? Sim, principalmente se essa vida se passar em Angola na pós Guerra Colonial. Pepetela regressa com um retrato mordaz dos últimos 30 anos em Angola, a seguir ao fim da Guerra Colonial, através da ascensão e queda do empresário Vladimiro Caposso. Rapaz modesto do Calulo, o filho de enfermeiro que tratava a tropa portuguesa, depressa descobre que sobreviver em Luanda em muito depende do MPLA e, por isso, muda o seu nome de José para o mais revolucionário Vladimiro. É a partir daí que começa a escalar os degraus da política e da finança. Dos anos 1970 e da loja aberta no feriado da Independência para poder servir o Povo ao novo milénio do campo de golfe onde rouba a água do rio aos pastores e agricultores, Vladimiro Caposso e a sua família empreendem em Predadores uma viagem ao longo das três décadas de transformação. Onde o oportunismo e a esperança se entremeiam na evolução de Angola até aos dias de hoje.
A Montanha da Água Lilás
Fábula para todas as idades
Em A Montanha da água lilás: fábula para todas as idades Pepetela narra mais um dos muitos giros que a história dá. O narrador conta-nos uma das muitas estórias que seu avô lhe contava à volta da fogueira que dizia que, em determinado local, existiu um povo chamado "lupis". Tinham na pele o traço da diferença dos outros povos por serem cor de abóbora e eram divididos entre lupis, pequenos e ágeis, e lupões, maiores em estatura mas sem a agilidade e disposição dos menores, apesar de extremamente eficazes nas operações matemáticas.
Com o passar do tempo deu-se, por razões desconhecidas, o surgimento de uma nova categoria de lupis, os jacalupis, que tinham este nome por serem bem maiores, lerdos e extremamente irritáveis. Lupis, lupões e jacalupis tentavam conviver pacificamente, apesar das dificuldades trazidas pelas suas diferenças. Certo dia, descobriu-se uma fonte de água diferente. Sua cor era lilás, seu perfume inebriante. Os lupis cientistas começaram a pesquisar seus efeitos e descobriram ser excelente cicatrizante e amaciador da pele e dos pelos. A notícia da água lilás espalhou-se pela floresta e todos quiseram ter acesso a esta nova maravilha que brotou repentinamente do solo. O comércio da água lilás não custou a aparecer e cabaças e mais cabaças dela era vendida aos animais. Dadas as habilidades dos lupis, estes passaram a ser responsáveis directos por encher os recipientes de água e levarem-nos ao pé da montanha para o escambo com os demais animais. Lupões e jacalupis, por serem maiores e menos dispostos ao trabalho, ficaram responsáveis por receber o pagamento da água mágica e a inventar novas formas de trocas. Ao cabo de algum tempo os lupis não aguentavam mais o peso do trabalho, enquanto os demais membros de sua sociedade vestiam flores, se adornavam com ossos e se abanavam com folhas que lhes eram vendidos como o mais moderno e sofisticado da floresta.
Neste processo apenas os lupi poeta e o pensador reagiram contra o comercialismo e o distanciamento que o comércio da água lilás trouxe à montanha. Seu posicionamento fez com que fossem condenados ao exílio, não podendo mais banhar-se na piscina construída para armazenamento da água lilás, nem tampouco descer das árvores onde ainda moravam.
Um dia a fonte da água lilás subitamente secou. Todos cavaram, esburacaram a montanha mas nenhuma gota verteu da terra. Lupis, lupões e jacalupis, endividados pelos gastos feitos por conta da venda da água, viram-se escravizados por aqueles a quem haviam vendido a água antecipadamente. Uma tarde, o lupi poeta e o pensador, únicos moradores que restaram no alto da montanha, desceram ao chão e sentiram, debaixo de uma outra pedra, o cheiro agradável da água lilás.
— Olha, ali em baixo cheira muito a água lilás. Deve haver.
O lupi-pensador concordou com a cabeça. Lupilou:
— Também já notei. Não lhe mexas. Nunca. Deixa-a estar aí em baixo. A nós basta vir aqui de vez em quando cheirar este perfume delicioso, lupi-lupi-lupi.
— Tens razão, é melhor que ela durma aí em baixo, lupi-lupi-lupi. É cedo de mais para a fazer sair.
E continuaram a lupilar, todos contentes, com a alegria que dá aspirar o perfume da água lilás. Sons que acariciavam os fetos e as flores da nossa montanha, talvez aqui perto de nós, hoje.

O lupi-pensador olhou a primeira carraça que se desenvolvia no braço esquerdo, com pena de a tirar. Disse:
— Lupi-poeta, tens que contar tudo isso que passou. Para que os lupis não se esqueçam dos seus erros.
O lupi-poeta fez então muitos poemas. Contavam a estória dos lupis e da água lilás. Também da desgraça que se abateu sobre eles e o seu destino.
Foram talvez esses poemas que chegaram ao conhecimento dos avós dos nossos avós, quando eles compreendiam a linguagem dos lupis. E nos contaram à noite, na fogueira, para transmitirmos às gerações vindouras.
A pergunta que usamos para terminar é a mesma que Pepetela usa em sua narrativa: Aprenderão eles com a estória? (M. A. Robson Lacerda Dutra, “Memória e história: a questão do poder entre colonizadores e colonizados- o eterno retorno do mito”, Revista Eletrónica do Instituto de Humanidades, vol.I, nº2, Junho-Agosto de 2002, Universidade Unigranrio,
A presente obra é uma belíssima alegoria alusiva aos Povos de África ou a qualquer parte do globo cujos recursos naturais se tornem imprescindíveis para a espécie humana.
Utilizando uma linguagem simples e, simultaneamente, poética, o Autor consegue fazer entender a um público tão vasto quanto possível, o processo social que leva à diferenciação de classes e, simultaneamente, a estruturação de uma economia assim como a instituição de um sistema político dentro de um dado território que comporte uma ou mais etnias.
A estória é contada no português dos PALOP utilizando o léxico e a semântica tipicamente angolanos. O Autor introduz, também, algum vocabulário da sua própria autoria – neologismos. Apesar disto, o leitor, após um período inicial de desorientação, passa facilmente a deduzir o significado deste léxico, para nós exótico, integrando-o facilmente no contexto.
Dedicado a Lueji, a filha do Autor, A Montanha da Água Lilás é um conto narrado por um ancião à luz da fogueira, em plena noite africana, cuja magia tem como objectivo deslumbrar um público sem idade.
Trata-se de um conto que nos poderia ter sido trazido de qualquer parte de África, ou até do Oriente, onde, segundo a lenda, também existe água lilás. Esta água perfumada é um produto extraordinário, vital para a humanidade, cujas propriedades têm a faculdade de eliminar todo o tipo de parasitas que infestem a pele dos lupis (habitantes da Montanha da Água Lilás) e também o humor dos seres vivos em geral.
Utilizando a água lilás como riqueza natural, que se torna necessária a todos os seres vivos, o Autor faz-nos entender o processo de estratificação social entre os lupis, a formação das profissões e a constituição dos diferentes tipos sociais que permitem que uma sociedade funcione como um todo, isto é, como um sistema social.
Da mesma forma, o Autor consegue, ao utilizar um discurso de uma candura que torna imediata a apreensão do significado de coisas extremamente complexas, mostrar-nos de que forma a água lilás consegue transformar uma economia fechada, numa economia de mercado e despoletar o aparecimento de uma sociedade de consumo.
A água lilás acaba também por ser o catalizador que leva a uma desigual distribuição da riqueza e a uma total inversão de toda uma escala de valores, possibilitada pelo desenvolvimento da economia e do contacto com outras culturas. É através desta preciosa matéria-prima que – inicialmente benéfica, mas que depois de transformada pelo (mau) uso da ciência e da tecnologia, sem ter em vista o bem comum, se torna nociva – nos é dado a conhecer o processo social que leva à elaboração de armas químicas e biológicas, com o objectivo de destruir os grupos rivais, desenvolvendo a corrida ao armamento. A água lilás torna-se assim, a longo prazo, a semente do ódio, da cobiça, da inveja e da ambição desmedida.
No meio de tudo isto, assiste-se, como é habitual na sociedade de consumo, à marginalização dos visionários – na pele de figuras tipo como o Pensador e o Poeta – que são os representantes do Idealismo. Ou seja, dos seres incómodos, que rapidamente identificam as complicações advindas de uma exploração comercial desenfreada e da má utilização da água lilás. Por outro lado, dá-se a ascensão fulgurante dos parasitas como os jacalupis, ou o triunfo dos medíocres. E assiste-se, paralelamente, ao sucesso do ávido comerciante, do sôfrego armazenista e de espécimens escorregadios e oportunistas como o diplomata e o advogado. Todos eles o retrato fiel daquilo que é a estrutura normal da sociedade.
Pepetela oferece-nos uma deliciosa metáfora social ao dotar o texto de uma sonoridade e de um ritmo tropical que lhe conferem um estilo com um encanto singular.
Mais ainda, o livro está povoado de lindíssimas ilustrações que contém em si o essencial de cada capítulo ajudando o leitor a decifrar a estória e a visualizar os lupis, lupões e jacalupis.
Uma obra deliciosa e um conto irresistível pela pureza com que é narrado. A mestria do Autor é evidenciada na transparência cristalina com que é tratado um tema tão complexo.
Por que o perfume da água lilás devolve-nos a capacidade de entender a realidade da mesma forma que as crianças: simplificando-a.
Um texto que mostra a beleza das coisas simples e a forma como a superficialidade da maior parte dos desejos onde, frequentemente, se confunde opulência com bem-estar. A realidade sem máscaras. Colocando o dedo na ferida. (Cláudia de Sousa Dias, blogue Há sempre um livro...à nossa espera!, Famalicão, 2006, http://hasempreumlivro.blogspot.com/2006/03/montanha-da-gua-lils-de-pepetela-dom.html )

Em A Montanha da água lilás, uma "fábula para todas as idades", é tecida, também de modo alegórico, uma lição: a de que Angola não pode deixar secar a "água lilás", fonte e metáfora de suas tradições e poesia: O Lupi-poeta fez então muitos poemas. Contavam a estória dos lupis e da água lilás. Também da desgraça que se abateu sobre eles e o seu destino. Foram talvez esses poemas que chegaram ao conhecimento dos avós dos nossos avós, quando eles compreendiam a linguagem dos lupis. E nos contaram à noite, na fogueira, para transmitirmos às gerações vindouras. Aprenderão elas com a estória?
A pergunta fica no ar, o livro termina em aberto. A resposta, entretanto, pode ser depreendida das entrelinhas do texto: soa como um ensinamento fabular para as novas gerações angolanas, que só aprenderão com essa estória, se souberem preservar o fluir lilás da liberdade e o respeito pela palavra, pela vida e pelo ser humano. (http://www.uea-angola.org/artigo.cfm?ID=188)
Perguntar o Mundo, perceber de uma forma simbólica os diferentes momentos em que as sociedades se alteram aportando novas regras sociais, valores e normas; a forma como as sociedades gerem os seus recursos naturais e a forma como a sua utilização comporta para cada sociedade novas aquisições; a apropriação dos ganhos pelos diferentes grupos sociais; a forma como o trabalho, e os ganhos que dele advêm, são distribuídos; como cada um de nós se altera quando as sociedades se alteram; como lidamos com os processos da dissonância... e um infindável ror de questões estão levantadas nesta fábula. (http://www.ctalmada.pt/cgi-bin/wnp_db_dynamic_record.pl?dn=db_festivais&sn=festival_2005_pn&rn=9&pv=yes)
WEBGRAFIA COMPLEMENTAR:
ANIMATEATRO, encenação de A montanha da água lilás, http://www.youtube.com/watch?v=kq96XTn0rpU
BROSE, Elizabeth Robin Zenkner, A máscara de múltiplas faces – narrativas de Pepetela, Porto Alegre, Universidade Pontifícia, Janeiro de 2005. Disponível em: http://www.lusitanistasail.net/tese_beth_brose.pdf
DUTRA, Robson Lacerda, “Vidas lusófonas: Pepetela” in http://www.vidaslusofonas.pt/pepetela.htm
EMBAIXADA de Angola em Portugal, Dicionário de Autores Angolanos, http://www.embaixadadeangola.org/cultura/literatura/autores.html
OLIVEIRA, Isaura de, “Pepetela e o nacionalismo angolano: do sonho à desconstrução da utopia”, IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada. Disponível em: http://www.eventos.uevora.pt/comparada/VolumeI/PEPETELA E O NACIONALISMO ANGOLANO.pdf
PEIXOTO, Carolina Barros Tavares (2006) Geração da utopia: um projeto de formação da identidade nacional angolana e suas metamorfoses. Colección Monografías, Nº 38. Caracas: Programa Cultura, Comunicación y Transformaciones Sociales, CIPOST, FaCES, Universidad Central de Venezuela. Disponível em: http://www.globalcult.org.ve/monografias.htm
PEPETELA, “Entrevistas a Pepetela” in http://www.aelg.org/activ/filesdownload/EntrevistasPepetela.pdf
7.2.12
5.2.12
L' Art Engagé (comprometida) de Luandino Vieira
| Modesto |
«Estória é um neologismo proposto por João Ribeiro (membro da Academia Brasileira de Letras) em 1919, para designar, no campo do folclore, a narrativa popular, o conto tradicional.
Alguns consideram o termo arcaico, por ter sido encontrado também em textos antigos, quando a grafia história ainda não havia sido consolidada na língua portuguesa.
O termo acabou por não ter uma aceitação generalizada, não figurando nos dicionários portugueses e apenas em alguns brasileiros. Apesar de ter sido usada na linguagem coloquial, o termo nunca figurou na norma culta.
O Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa Caldas Aulete classifica o termo como brasileirismo, afirmando que a palavra foi proposta, mas deve ser usada a forma história».
(Wikipédia;30/01/2011)
O COMPROMETIMENTO SOCIAL E POLÍTICO DE LUANDINO NAS SUAS «ESTÓRIAS».
(leitura complementar)
LUANDINO VIEIRA: ENGAJAMENTO E UTOPIA
Vima Lia Martin (USP)
Há coisas que se choram muito anteriormente.
Sabe-se então que a história vai mudar.
(Ruy Duarte de Carvalho)
Grande parte da história do angolano Luandino Vieira confunde- se com a história da luta pela independência política de seu país, o que o levou a sofrer profundamente as conseqüências da militância política. Nascido em Portugal, em 1935, José Mateus Vieira da Graça ainda criança mudou-se com os pais para Angola, país que assumiu como seu. Viveu a infância e a adolescência em bairros populares, conhecidos como musseques, como o Braga, o Makulusu e o Quinaxixe. Mais tarde, integrou-se à geração da revista angolana "Cultura" (II), publicada entre 59 e 61, e juntamente com Arnaldo Santos, Costa Andrade, Ernesto Lara Filho, Henrique Abranches, Mário Guerra, entre outros, contribuiu decisivamente para a consecução do projeto de nacionalização da literatura angolana. Preso em Lisboa em 1961, acusado de exercer "atividades anticolonialistas", foi libertado somente em 1972, depois de ter cumprido os três primeiros anos de sua pena em Luanda e o tempo restante no campo de concentração de Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde.
Luandino, nome que autor escolhe para assinalar sua identificação com a capital angolana, diz muito de sua dedicação à causa da libertação nacional. A maior parte da obra do escritor foi escrita na prisão e sua publicação, quase toda a posteriori, não corresponde necessariamente à ordem em que foi escrita. Seu primeiro livro, A cidade e a infância, é publicado em Lisboa, pela Casa dos Estudantes do Império, em 1960. Já Luuanda, livro-chave na trajetória literária do autor, como veremos mais adiante, foi escrito na prisão durante o ano de 1963, publicado em Angola em outubro de 64 e obteve, em 1965, o Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, o que gerou uma violenta reação de setores sociais conservadores e, inclusive, culminou na extinção dessa associação por decisão do governo português.
Notadamente durante os anos 60 e 70, Luandino Vieira demonstrou grande convicção no exercício de um poder político que possibilitasse a construção de uma cidadania plena para os angolanos. Sem necessariamente almejar o poder de mando, o escritor envolveu-se na luta empreendida pelo MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) pela constituição de um poder novo, capaz de gerir um país também novo, onde efetivamente houvesse menos injustiças sociais. Logo depois da independência, ocupou cargos de direção no governo revolucionário e trabalhou como presidente da Radiotelevisão Popular de Angola e como secretário-geral da União de Escritores Angolanos.
Depois de ter publicado quatro romances - o último, intitulado Nosso musseque, foi publicado em 2003 - e cerca de oito livros de estórias, atualmente Luandino Vieira vive discretamente numa pequena cidade ao norte de Portugal.
Engajamento e utopia
A leitura de cartas e depoimentos de Luandino Vieira pode nos auxiliar a compreender o engajamento e a utopia que são marcas inequívocas de seu projeto ficcional. Se é fato que a literatura de Luandino é forjada a partir de uma clara indignação diante da realidade a que está submetida a maioria dos angolanos, também é verdade que a maneira como ele se posicionou pessoalmente diante do processo de construção da história de seu país é, em certa medida, perceptível na fatura dos próprios textos. Assim, não são apenas os momentos históricos vividos em Angola em meados do século passado que vão transparecer nas narrativas do escritor. Mais do que isso, a subjetividade do sujeito que vivenciou essa História será significativa na constituição das obras: é na tensão entre a vida particular e a vida social que se dá a ação e a reflexão do autor.
Em cartas enviadas da prisão ao amigo Carlos Everdosa, intelectual que também fez parte da geração que se organizou em torno da revista "Cultura"(II), Luandino Vieira atesta sua imensa capacidade de resistência e a confiança na transformação política e social do seu país. Ainda em Luanda, antes de ser transferido para o campo de concentração do Tarrafal, ele escreve:
31-7-64
Meu caro:
Faltam poucas horas para embarcar no "Cuanza" rumo a cabo Verde - ou assim dizem. Li a tua carta e aproveito estes curtos momentos para te enviar umas linhas, talvez as últimas que recebas de mim antes do regresso geral à nossa terra, às nossas coisas, ao nosso povo. É muito difícil nesta altura dizer qualquer coisa; mas podes afirmar aos amigos e companheiros que procurarei sempre ser digno da confiança que têm em mim; que, nas minhas possibilidades e dentro do meu particular campo de acção - o estético - ... tudo farei para que a felicidade, a paz e o progresso sejam usufruídos por todos.
(...)
O meu livro, o livro da Linda afinal, chegar-te-á talvez com mais trabalhos selecionados para a 2ª edição. Se a conseguirem aí em edição de bolso era óptimo para ir a concurso da Sociedade Portuguesa de Escritores. Depois enviem ao Jorge Amado (Brasil) para ver se conseguem uma edição lá. Não é pelo livro, claro, é pelo que ele pode representar como "arma" para a nossa libertação.(...)
Mesmo envolvido por incertezas - o escritor tem dúvidas sobre a possibilidade de continuar se comunicando com os amigos, estando isolado em Cabo Verde -, Luandino Vieira demonstra uma profunda tranqüilidade e uma notável disponibilidade para a relação com o outro: não apenas afirma sua fidelidade aos companheiros, como também se diz empenhado na luta pelo bem comum. Note-se que as reticências, utilizadas depois do termo "estético", podem indicar que o campo de atuação do escritor talvez transcenda o especificamente literário, sugerindo um envolvimento direto com ações revolucionárias.
No parágrafo final, o livro que o autor menciona é Luuanda, chamado de "livro da Linda" porque foi ela, sua mulher à época, que conseguiu retirar clandestinamente os manuscritos da prisão, escondidos num saco de fundo duplo, no qual levava as refeições em visitas diárias ao marido. Já o concurso promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores, forte centro de resistência ao fascismo, é justamente aquele que iria premiar a obra no ano seguinte. Vale ainda ressaltar a referência de Luandino Vieira a Jorge Amado, escritor brasileiro que apresentava posições políticas progressistas e certamente apoiava a luta de libertação angolana. A importância atribuída a uma edição brasileira do livro naquele momento reforça o caráter militante assumido pela literatura, que se torna efetivamente uma arma de combate contra a opressão colonial.
Dois anos depois, já em Cabo Verde, outra carta destinada a Carlos Everdosa reafirma a esperança e o comprometimento do escritor:
Tarrafal, 14-10-66
(...) Meu caro Carlos: só não compreendo como insistes em alcunhas ainda que sinceras como a do "maior ficcionista angolano". Isto para te falar no estares desiludido de ti próprio, como dizes, e de muitos outros. Isso era inevitável, é um constante suceder e é preciso compreendermos que não há outros homens para com eles construir o mundo. É com esses mesmos que se fará - ou nunca se fará. E portanto me regozijo que digas que ainda vai havendo sementeiras para o futuro. Nós somos responsáveis, pouco ou muito não importa, ou o que importa é que o sejamos na medida em que nos foi permitido ou o soubemos ser, por essas sementes. Portanto não se justifica essa desilusão de nós próprios, mas é necessário não cairmos nas mistificações da sementeira que parimos. É só isso que fará a nossa justificação: lucidez. Mas para que não penses que o teu primo é um super-homem e para que se dissolvam ainda mais as idéias feitas, sempre te digo, meu caro irmão, que há dias em que os seguintes versos são possíveis: "é necessário o ódio/ só ele impele/ o vermelho estrebuchar do sangue/ quieto insone/ sob o medo...// só ele sacode/ o cansado sono do pensamento/ puro fraterno/ sob o amor// é necessário o ódio/ só ele liberta/ só ele não cansa!"
As palavras de encorajamento de Luandino Vieira dirigidas ao amigo desiludido realmente traduzem a lucidez tão necessária para o enfrentamento da realidade. O pragmatismo demonstrado por ele ("é preciso compreendermos que não há outros homens para com eles construir o mundo"), alia-se à esperança de que as "sementeiras" já plantadas iriam germinar no futuro. Porém, ele alerta: "mas é necessário não cairmos nas mistificações das sementeiras que parimos". Para o autor, utopia não tem nada a ver com ilusão: enquanto a primeira deve considerar as contingências, a segunda é completamente fantasiosa. Nessa perspectiva, o trabalho de disseminação da ideologia libertária, de formação de quadros, de conscientização, enfim, havia sido realizado "na medida em que nos foi permitido ou o soubemos ser". E o resultado dessa tarefa dependia principalmente dos sujeitos que iriam sucedê-los.
Finalmente, o poema escrito por Luandino - para que ele mesmo não esmoreça - fala sobre a necessidade imperativa do ódio para manter a firmeza dos combatentes. "Só o ódio", diz o autor, "impele", "sacode", "liberta", "não cansa". Num contexto revolucionário, o ódio, explicitamente dirigido contra os mecanismos opressores e seus representantes, é o que mantém acesa a chama da luta, driblando o medo e o cansaço: odiar é necessário para que a fraternidade seja conquistada.
Essa carta, escrita depois de cinco anos de confinamento, revela a tenacidade do escritor e sua imensa capacidade de alimentar - com lucidez - a utopia de uma Angola livre. Mais de dez anos depois, em entrevista concedida a Michel Laban em 1977, portanto dois anos depois da conquista da independência, Luandino Vieira faz uma avaliação de sua trajetória pessoal e acaba por validar sua atitude combativa, reafirmando a certeza de que havia sempre agido justificadamente:
Portanto, pessoalmente, também considero que, suceda o que suceder à República Popular de Angola, nunca, tanto quanto vejo, posso dizer assim: "Bom, meti a minha vida por uma estrada que não tinha qualquer sentido ou fim". Suceda o que suceder, considero sempre que o que andei até hoje estava perfeitamente justificado, quer individualmente - não sou pessoa com grandes problemas de natureza pessoal, o que não quer dizer que diariamente não reflita sobre a minha atividade - quer coletivamente.
Ao estabelecer uma clara distinção entre o significado da luta pela independência e o futuro de Angola como nação independente, Luandino salienta a importância de ter participado do movimento revolucionário. Afirmando ser uma pessoa sem "grandes problemas de natureza pessoal", o escritor atribui sentido pleno a suas atitudes, reafirmando a convicção de ter feito exatamente o que era possível fazer em cada encruzilhada histórica. Seja no nível individual ou no nível coletivo, a coerência parece ter sido marca decisiva em sua conduta.
A inserção histórico-social de Luandino Vieira pauta-se sobretudo por uma reflexão aguda sobre sua realidade nacional. Contra a manutenção de uma ordem social excludente, Luandino Vieira aposta na efetivação de uma realidade mais justa e inclusiva em Angola. Em tempos revolucionários, o escritor angolano forja um discurso transgressor e utópico que vai reivindicar literariamente - e politicamente - identidade e autonomia para seu país.
A ficcionalização da marginalidade social
O repertório e a perspectiva que sustentam a conjunto da obra de Luandino Vieira estão essencialmente marcados por sua vivência infantil nos musseques, bairros populares luandenses, em fins da década de 30 e início da década de 40. Na percepção do próprio autor, viver na "margem africana" da maior cidade angolana teria sido fundamental para forjar sua consciência política:
Tudo isso [as contradições sociais, o preconceito, as diferenças culturais entre as tradições africanas e européias], em criança, fui vivendo e mais tarde fui relatando. Isso me deu a riqueza - o que eu penso ser a riqueza - de uma experiência que se prolongou até aos dez, doze anos e que serviu para a aquisição de valores culturais africanos, valores populares angolanos, que continuamente a margem africana da cidade estava elaborando, e que, depois, no liceu, quando chegou a idade em que eu comecei a ler outras coisas, fui interpretando de outro modo, e que foram realmente o germe de minha consciência política.
Seja através do exercício do conto ou do romance, a opção de Luandino Vieira foi por ficcionalizar os desafios vividos pelos marginalizados que habitam a periferia de Luanda e sublinhar o potencial de resistência dos habitantes dessa periferia mestiça. Vale registrar que, afastados do centro, os musseques também funcionavam como guetos que mantinham as populações africanas longe dos brancos mais ricos que habitavam a parte central da cidade, denominada de "Baixa".
Uma das estórias do escritor, intitulada "A fronteira do asfalto" e publicada em A cidade e a infância, trata justamente da acentuada divisão entre periferia e centro, negros e brancos, pobres e ricos na cidade de Luanda. Lembremos que em seu desfecho, Ricardo, o jovem morador do musseque, morre no meio fio ao tentar falar com Marina, a menina de tranças loiras que habitava o asfalto. A interdição do mundo branco aos africanos e, no limite, a impossibilidade de diálogo entre universos ideologicamente conflitantes são simbolicamente retratadas pela narrativa.
Aliás, é importante sublinhar que os contos escritos por Luandino Vieira são nomeados por ele como "estórias", já que guardam uma relação profunda com o universo da oralidade. Vale dizer que o termo "estórias", que designa narrativas de cunho tradicional e popular, já havia sido utilizado pelo brasileiro Guimarães Rosa e, posteriormente, também foi escolhido pelo escritor moçambicano Mia Couto para qualificar os seus contos.
Como bem apontaram pesquisadoras como Maria Aparecida Santilli, Tania Macêdo e Carmen Lucia Tindó Secco, os três escritores - Guimarães Rosa, Luandino Vieira e Mia Couto - aproximam-se pelo fato de criarem uma linguagem inovadora, que amalgama aspectos do português padrão a formas espontâneas da oralidade praticada pelas populações marginalizadas enfocadas em seus textos[6]. O resultado dessa mistura é a expressão de uma lógica que revela um modo de ser e de ver o mundo característico de sujeitos que se encontram em profunda tensão com as normas da civilização moderna.
È importante ressaltar que uma das singularidades da obra produzida por Luandino Vieira repousa justamente na convicção que a sustenta: a de que o texto literário deveria afirmar a grande diferença cultural angolana a partir da qual a autodeterminação e a independência poderiam ser reivindicadas. Nesse sentido, a elaboração discursiva de suas estórias dá-se em função de um projeto político bastante claro. Num período tenso e convulsionado, a luta em curso deixa em aberto novas possibilidades de configuração social. Daí que a marginalidade social ficcionalizada pela narrativas do autor angolano deva ser vista como conseqüência conjuntural, já que é decorrência de uma situação de opressão tida como transitória.
Luuanda: a cartilha do musseque
Como já assinalamos, o livro de contos Luuanda atesta a maturidade de Luandino Vieira como ficcionista, uma vez que marca um redirecionamento de sua escrita literária, que passa a apresentar uma maior sofisticação no modo de representar a realidade luandense que sempre alimentou a sua prosa. De fato, se a objetividade e o caráter de exemplaridade das situações narrativas se fazem mais presentes nas primeiras estórias do autor - nos contos de A cidade e a infância, de Vidas novas e no romance A vida verdadeira de Domingos Xavier -, a partir de Luuanda a complexidade das relações sociais, culturais e políticas típicas dos espaços marginais urbanos assumem maior destaque, condicionando a forma literária - que se torna intensamente oralizada - e rompendo com um registro mais simplificado da realidade.
Nessas narrativas da segunda fase, além de haver uma modificação na configuração dos protagonistas, observa-se também uma transformação na perspectiva do narrador que, paulatinamente, abandonará a perspectiva da onisciência para abrir maior espaço para que as personagens construam suas falas e suas versões sobre os conteúdos narrados. Desse modo, o narrador abandona seu papel de intérprete privilegiado dos fatos enunciados e a polifonia torna-se marca constitutiva das narrativas.
No plano lingüístico, também a partir de Luuanda a própria estrutura textual é fortemente impregnada pelas "marcas da terra", que deixam de ser somente tema para atuarem profundamente na forma das narrativas. Lembremos que, na década de 60, quando grande parte da população angolana não era alfabetizada em português e a dominância das culturas tradicionais, mesmo num centro como Luanda, era muito mais forte do que hoje, era grande a variação do português metropolitano, misturado aos falares característicos das línguas nacionais. Assim, formas do quimbundo - língua falada na região de Luanda e que, juntamente com o umbundo e o quicongo, conforma as três principais línguas nativas - são misturadas a formas do português normativo, modelando uma linguagem híbrida de grande potencial expressivo.
Virtualidades, associações imprevistas, alterações na estrutura da frase, incorporação do léxico quimbundo. A recriação lingüística operada por Luandino Vieira aposta numa leitura essencialmente dinâmica, em que o leitor é também intérprete da matéria narrada, atuando quase como co-autor das estórias. Isso significa fundamentalmente a decodificação da lógica das populações autóctones - já que ela passa a presidir a ação narrativa. Ao apreender a dicção típica das populações marginalizadas, o leitor compartilha da "cartilha do musseque", o que significa conhecer de perto a realidade dos oprimidos e posicionar-se em relação à luta por sua libertação.
Ao justificar o "desvio da norma" em suas estórias, o próprio Luandino afirma:
(...) penso que o primeiro elemento da cultura angolana que interferiu com a escrita, segundo a norma portuguesa, foi a introdução da oralidade luandense no meio do discurso da norma portuguesa... mas depois, quando entramos na luta política pela independência do país, que foi feita em nome das camadas que não tinham voz - e se tivessem não podiam falar, e se falassem não falariam muito tempo... -, foi aí que os escritores angolanos resolveram dar voz àqueles que não tinham voz e, portanto, escrever para que se soubesse o que era o nosso país, se soubesse qual era a situação do país e, desse modo, interferirem de maneira a modificarem essa situação...
Sobre a elaboração de Luuanda, o escritor é ainda mais contundente ao relacionar elaboração discursiva e resistência política:
E como estávamos numa fase de alta contestação política - e um dos elementos dessa contestação política do colonialismo era afirmar a nossa diferença cultural, mesmo na língua -, um bichinho qualquer soprou-me a dizer-me: "Por que é que tu não escreves em língua portuguesa de tal maneira que nenhum português perceba!"
Foi desta maneira que escrevi essas três estórias do Luuanda, de tal maneira que se um português de Portugal lesse, percebesse todas - ou quase todas - as palavras e dissesse que era português e, depois, dissesse ao mesmo tempo: "Não percebo nada disto!" Foi alguma coisa de deliberado, de provocatório, e por isso, essas três estórias não resistiram ao tempo.
Escrever em língua portuguesa e ao mesmo tempo não ser compreendido por um português: tal foi o desafio proposto por Luandino Vieira ao conceber Luuanda. O resultado dessa tarefa, ao contrário do que afirma modestamente o autor, não foi o perecimento da obra, mas a afirmação de sua grandeza. Ao buscar a diferenciação da língua da metrópole, o escritor encontra um caminho expressivo bastante original, realizando uma mescla lingüística que inscreve sua obra entre as grandes obras escritas em língua portuguesa.
O processo de busca por uma dicção angolana realmente autêntica leva Luandino a encontrar parentesco entre o seu trabalho o os textos de Guimarães Rosa. Em diversos depoimentos e entrevistas, o escritor afirma a importância da leitura do autor brasileiro no que tange aos seus próprios processos de criação lingüística. Sobre a apreensão que realiza de Sagarana, por volta de 1963, declara:
E então aquilo foi para mim uma revelação. Eu já sentia que era necessário aproveitar literariamente o instrumento falado dos personagens, que eram aqueles que eu conhecia, que me interessavam, que reflectiam - no meu ponto de vista - os verdadeiros personagens a pôr na literatura angolana. Eu só não tinha ainda encontrado era o caminho. (...) Eu só não tinha percebido ainda, e foi isso que João Guimarães Rosa me ensinou, é que um escritor tem a liberdade de criar uma linguagem que não seja a que os seus personagens utilizam: um homólogo desses personagens, dessa linguagem deles.
A "revelação" de que fala Luandino Vieira talvez deva ser compreendida em termos de "confirmação". Afinal, quando o escritor leu Sagarana, ele havia concluído a sua "Estória do ladrão e do papagaio", narrativa central de Luuanda, em que já se observa uma recriação lingüística notável Por isso, em vez de influência, talvez possamos pensar em confluência entre a escrita dos dois autores: ambos, na intenção de reelaborar a linguagem de sujeitos que se situam à margem das normas sociais impostas, empenham-se em realizar um intenso trabalho de oralização do discurso escrito. Guardadas as diferenças contextuais de produção e as especificidades de cada projeto estético-ideológico, os discursos dos dois escritores convergem na medida em que operam o resgate de culturas locais e marginais através da utilização inventiva da linguagem.
A celebração da utopia
A elaboração literária de Luuanda deixa entrever uma perspectiva utópica da realidade. Concebida num momento histórico revolucionário, a obra sinaliza a consolidação paulatina do processo de resistência popular que se opõe ao poder colonial, sugerindo caminhos para a transformação efetiva da sociedade angolana. Suas três estórias - "Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos", "Estória do ladrão e do papagaio" e "Estória da galinha e do ovo" - atestam que o amadurecimento dos sujeitos, que devem assumir o seu papel transgressor, é condição fundamental para a conquista da independência e para a construção de uma nova Angola.
A utopia revolucionária que perpassa e sustenta Luuanda pode ser percebida em vários aspectos da elaboração das estórias, todas organizadas por um narrador onisciente: na aprendizagem empreendida pelos protagonistas, na progressão temporal sugerida pela sucessão das narrativas e na ampliação paulatina da voz do "griot" a ritualizar o texto escrito.
A ação narrativa do conto, o único em que a voz do "griot" não se faz presente e que certamente por isso não é nomeado como "estória" pelo narrador, centra-se nas dificuldades enfrentadas por uma avó e seu neto, que moram juntos numa mesma cubata, de sobreviverem em meio às agruras típicas da exclusão social, numa sociedade extremamente preconceituosa e segregadora. Perplexos e sem consciência política, Zeca Santos e sua avó deixam-se envolver pelos sentimentos de fracasso e impotência. A velha, ligada ao passado, e o moço, desiludido com o presente, não sabem como agir para construir um futuro livre da violência e da opressão.
Leiamos os dois últimos parágrafos do texto:
Por cima dos zincos baixos do musseque, derrotando a luz dos projetores nas suas torres de ferro, uma lua grande e azul estava subir no céu. Os monandengues brincavam ainda nas areias molhadas e os mais velhos, nas portas, gozavam o fresco, descansavam um pouco dos trabalhos desse dia. Nos capins, os ralos e os grilos faziam acompanhamento nas rãs das cacimbas e todo o ar estava tremer com essa música. Num pau perto, um matias ainda cantou, algumas vezes, a cantiga dele de pão-de-cinco-tostões.
Com um peso grande a agarrar-lhe o coração, uma tristeza que enchia todo o corpo e esses barulhos da vida lá fora faziam mais grande, Zeca voltou dentro e dobrou as calças muito bem, para agüentar os vincos. Depois, nada mais que ele podia fazer já, encostou a cabeça no ombro baixo de vavó Xíxi Hengele e dasatou a chorar um choro de grandes soluços parecia era monandengue, a chorar lágrimas compridas e quentes que começaram a correr nos riscos teimosos as fomes já tinham posto na cara dele, de criança ainda. (p.38)
Observe-se que a descrição da paisagem natural e humana do musseque presentifica-se de modo contundente. A politização do espaço mestiço e periférico do musseque, que acolhe indistintamente crianças e velhos, é enfatizada e a música orquestrada pelos pequenos animais nativos expressa a vitalidade da terra angolana.
Mas, no momento final da narrativa, "os barulhos da vida lá fora" só fazem aumentar a tristeza e a impotência do protagonista, que "nada mais podia fazer" contra a miséria a que estava submetido junto com a avó. Daí o choro inconsolável, sinal de que Zeca não era capaz de vislumbrar saída para sua situação marginal. A afirmação dupla de sua infantilidade - em quimbundo e em português: "parecia era monandengue" e "cara dele, de criança ainda" - atesta menos a idade cronológica do rapaz e mais a sua incompreensão dos mecanismos da opressão colonial. Sem mais nada a dizer, o narrador suspende a narrativa bem no meio desse desamparo, deixando as personagens a sós com sua dor e deixando a nós, leitores, perplexos com a sua solidão.
A estória central do livro, "Estória do ladrão e do papagaio", opera uma espécie de passagem entra a primeira narrativa - em que os protagonistas ainda não despertaram para a necessidade do engajamento na luta contra o colonizador - e a última - em que as personagens vão experienciar o alcance político da prática social solidária. De um modo bem genérico, é possível dizer que o texto fala sobre o encontro de três africanos na prisão - Xico Futa, Lomelino dos Reis e Garrido Fernandes - e sobre o florescimento da solidarieidade entre eles. Vale afirmar que o papel exercido por Xico Futa é central nessa interação: ele é porta-voz de ensinamentos preciosos para as outras personagens e também para os leitores da estória.
Nesse sentido, a "parábola do cajueiro", enunciada por Futa, é fundamental para a constituição de um saber revolucionário. Nessa narrativa de caráter didático, a personagem adverte que é preciso conhecermos a raiz ou o princípio daquilo que mobiliza as pessoas e as suas ações. Vejamos:
(...) Sentem perto do fogo da fogueira ou na mesa de tábua de caixote, em frente do candeeiro; deixem cair a cabeça no balcão da quitanda, cheia do peso do vinho ou encham o peito de sal do mar que vem no vento; pensem só uma vez, um momento, um pequeno bocado, no cajueiro. Então, em vez de continuar descer no caminho da raiz à procura do princípio, deixem o pensamento correr no fim, no fruto, que é outro princípio e vão dar encontro aí com a castanha, ela já rasgou a pele seca e escura e as metades verdes abrem como um feijão e um pequeno pau está nascer debaixo da terra com beijos da chuva. O fio da vida não foi partido. Mais ainda: se querem outra vez voltar no fundo da terra pelo caminho da raiz, na vossa cabeça vai aparecer a castanha antiga, mãe escondida desse pau de cajus que derrubaram mas filha enterrada doutro pau. Nessa hora o trabalho tem de ser o mesmo: derrubar outro cajueiro e outro e outro... É assim o fio da vida. Mas as pessoas que lhe vivem não podem ainda fugir sempre para trás, derrubando os cajueiros todos; nem correr sempre muito já na frente, fazendo nascer mais paus de cajus. É preciso dizer um princípio que se escolhe: costuma se começar, para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas. (p. 54)
Ao insistir no fato de que devemos refletir sobre o cajueiro - imagem das estórias entrelaçadas que conformam e justificam a realidade - e perseguir o fio da vida - fio das histórias pessoais e coletivas - Futa aponta para a necessidade de constituirmos nossa identidade como sujeitos históricos, afirmando valores fundamentais para a mobilização popular contra o poder instituído.
Já no final da estória, a confraternização entre os capianguistas presos afirma a solidariedade tão necessária para o enfrentamento da luta e é aí que a voz do narrador/"griot" vai se manifestar pela primeira vez. Sua fala, antes de mais nada, pede um posicionamento dos leitores, propondo um julgamento estético - e ético - da própria estória: Minha estória. Se é bonita, se é feia, os que sabem ler é que dizem (p.96). Desse modo, "os que sabem ler" ocupam o lugar da audiência dos antigos "griots" e são convocados a aderir ou não à narrativa e aos seus ensinamentos.
Por fim, a última frase do narrador/"griot", que encerra definitivamente o texto, é: "E isto é a verdade, mesmo que os casos nunca tenham passado" (p.97). Se pensarmos no caráter didático de muitas das estórias tradicionais, que cumprem a função de transmitir valores éticos, o valor atribuído à verdade na "Estória do ladrão e do papagaio" estaria contido justamente na sugestão de procedimentos importantes para o estabelecimento da harmonia nas relações pessoais e sociais. Ao afirmar que diz a verdade, "mesmo que esses casos nunca tenham se passado", o narrador/"griot" articula as noções de real e verossímil, fazendo com que os leitores/ouvintes tornem-se testemunhas vivas e ativas da possibilidade de construção de uma nova realidade histórica afinada com as aspirações revolucionárias.
A terceira estória, "Estória da galinha e do ovo", que já começa com a voz do "griot" anunciando-a como "caso", tem como motor a disputa entre duas vizinhas - nga Bina e nga Zefa - pela posse de um ovo. Posto pela galinha Cabíri, que pertencia à nga Zefa, no quintal de nga Bina, que está grávida e tem o marido preso, o ovo é reivindicado por ambas, que alegam seu direito sobre ele. A solução do conflito se dá com a interferência de duas crianças - Beto e Xico - que, imitando o cantar de um galo, fazem com que Cabíri fuja das mãos de policiais que haviam sido chamados para intervir no caso e que pretendiam levar vantagem na situação. Depois disso, nga Zefa resolve abrir mão do ovo e oferecê-lo a nga Bina. Na cena final da estória, podemos observar toda a satisfação da jovem mãe:
De ovo na mão, Bina sorria. O vento veio devagar e, cheio de cuidados e amizade, soprou-lhe o vestido gasto contra o corpo novo. Mergulhando no mar, o sol punha pequenas escamas vermelhas lá embaixo nas ondas mansas da Baía. Diante de toda a gente e nos olhos admirados e monandengues de miúdo Xico, a barriga redonda e rija de nga Bina, debaixo do vestido, parecia era um ovo grande, grande... (p.123)
O vagar do vento, a amenidade do sol e a mansidão do mar demonstram a solidariedade da natureza com a protagonista. A força de sua imagem carregando dois ovos - um nas mãos e outro na barriga -, símbolos de vidas novas que se anunciavam, atesta o acerto na solução de um impasse que parecia insolúvel. A justiça é alcançada graças à intervenção das crianças que conseguem fazer com que o ovo alimente aquela que está gestando um novo angolano, metáfora de um futuro mais desejável para Angola. E as reticências que encerram o parágrafo traduzem justamente esse porvir que precisa ser conquistado.
Para arrematar a narrativa, o narrador/"griot" mais uma vez atualiza a forma oral cristalizada das estórias tradicionais, pedindo o julgamento do relato pelos leitores e atestando a sua verdade:
Minha estória.
Se é bonita, se é feia, vocês é que sabem. Eu só juro que não falei mentira e estes casos se passaram nesta nossa terra de Luanda.(p.123)
Como já vimos, a avaliação estética exigida dos leitores é também uma avaliação ética. Julgar a estória "bonita" significa concordar com os valores que ela veicula e, em última instância, interiorizá-los e colocá-los em prática. Já o contrário significa a não adesão à ideologia que sustenta a narrativa, a negação daquilo que ela propõe - e que já havia sido anunciado na segunda estória: a ressignificação da tradição, a compreensão histórica dos fatos e a solidariedade entre os angolanos como forma de fortalecimento na luta contra os representantes do colonialismo.
Mais uma vez, a "verdade" da estória afirma exatamente aquilo que é necessário para a conquista da liberdade e da justiça na "nossa terra de Luanda". Trata-se, assim, não da afirmação de realidades sedimentadas, mas da possibilidade de construção de uma nova realidade histórica.
A última narrativa de Luuanda valoriza o caráter revolucionário da ação dos monandengues que, valendo-se de conhecimentos tradicionais, salvam a galinha de cair em mãos inimigas e ensinam as mulheres a agir de maneira mais consciente e coerente com os objetivos da luta contra a opressão colonialista. Temos, então, a utilização da sabedoria dos mais-velhos em função de uma causa bastante objetiva, representativa da luta que deve ser travada para a conquista da liberdade. As gerações mais novas, representadas por Beto e Xico, põem em prática o "exercício da compreensão" explicitado por Xico Futa na estória central do livro.
A progressão temporal sugerida pela ordenação das três narrativas de Luuanda diz muito do sentido geral do livro. Nele, passado, presente e futuro se dispõem cronologicamente, perfazendo uma trajetória que anuncia novos tempos. De Vavó Xíxi à criança gestada por Bina, o fio da vida trançado pelo escritor é percorrido também pelos leitores. Desse modo, um percurso que diz respeito à construção de um saber ou de uma ética revolucionária pode ser depreendido da leitura encadeada das três narrativas do livro. Vale lembrar que a última estória se encerra com o pôr do sol. Aliás, o poente - referido por três vezes durante a narrativa - é bastante significativo em sua elaboração. Para além dos sentidos evocados por seu tom avermelhado - a paixão revolucionária, o sangue derramado na luta pela liberdade e até a cor característica das bandeiras dos partidos comunistas -, é possível pensar que o cair do dia metaforiza o final de um ciclo, de um tempo de opressão que deve se encerrar. Desse modo, a estória sinaliza que, depois da morte do tempo colonial, um novo dia - vidas novas, novos tempos - surgirá.
É prática literária de Luandino Vieira, corporificada nas três narrativas do livro, aproximaria-se da concepção de "utopia concreta" desenvolvida por Ernst Bloch principalmente em sua obra Das Prinzip Hoffnung (O princípio esperança), escrita entre 1938 e 1948.
Numa linha marxista, o filósofo alemão desenvolve seu conceito de utopia a partir do sentido ontológico do "ainda-não-ser", redefinindo o conceito de "ser" como "modo de possibilidade para frente". Assim, ao combinar uma concepção materialista da história e as potencialidades imanentes ao sujeito, espécie de força dinâmica que o projeta para o futuro, Bloch vislumbra a "realização progressiva da utopia marxiana da sociedade sem classes, que aposta na transformação da vida capitalista alienada em autodeterminação humana real, em auto-realização e em emancipação social individual."
Arno Münster, um dos maiores intérpretes da filosofia blochiana, ao circunscrever os sentidos do "espírito utópico" no pensamento de Bloch, verifica a relação estabelecida entre o conceito de utopia e o de "esperança crítica", o que visaria
à negação de todas as relações humanas baseadas na alienação e na dominação, e a articulação desta esperança com o projeto (utópico) de uma revolução ética, devendo completar o objetivo de uma revolução das estruturas econômicas da sociedade. Por fim, o "espírito utópico" implica uma reformulação da questão ética, não no sentido de uma "ética normativa" tradicional, mas no sentido da reivindicação da realização de uma nova prática humana e moral enquanto síntese de uma nova concepção ética das relações inter-humanas que abrange não somente os ideais de igualdade e de fraternidade sintetizados pela Revolução Francesa, mas também os objetivos de uma revolução socialista.
Parece-nos claro que o imaginário social configurado em Luuanda vai ao encontro da formulação de uma "revolução ética", capaz de concretizar o projeto utópico de um país livre e justo. Nesse sentido, a proposta do escritor angolano aposta na transformação da realidade vivida pelas personagens a partir de sua conscientização e de sua atitude revolucionária.
Em termos mais formais, o engajamento da linguagem literária recriada em Luuanda se dá através da mistura entre o português e o quimbundo e também através da inscrição universalizante da palavra oral, recuperada ritualisticamente para ampliar o alcance dos ensinamentos contidos em cada narrativa. Dessa maneira, o diálogo estabelecido entre os modos da cultura oral e os modos da cultura letrada realiza a superação, em termos do discurso literário, da dicotomia existente entre tradição e modernidade. Em termos sociais, tal síntese cultural pode ser pensada como a superação da realidade de opressão típica do colonialismo. Afinal, ao ressignificar os valores e as práticas culturais tradicionalmente angolanas e afirmar um saber fundamentalmente ético, a obra articula passado e presente em função de uma experiência futura mais desejável.
Aparentando-se com os casos tradicionais, as duas últimas estórias do livro de Luandino Vieira transmitem valores essenciais para o bem-estar coletivo e exigem um posicionamento crítico de quem se dispõe a conhecê-las
Embora profundamente arraigada na história angolana pré-independência, a escrita literária de Luuanda permanece viva e atual como reflexão sobre contradições e impasses que, se estão presentes no plano social, estão também profundamente cravados nas subjetividades dos protagonistas das narrativas e, em alguma medida, de cada leitor.
Para além de sugerir a afirmação de uma ética revolucionária fundamental para a superação dos impasses inerentes à condição marginal na Luanda do início dos anos 60, o "otimismo militante" de Luandino Vieira aposta nas possibilidades e nas potências imanentes ao homem, sujeito literariamente concebido como livre e capaz de concretizar utopias sociais.
Vima Lia Martin é doutora em Letras e professora de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo. Atualmente é vice-diretora do Centro de Estudos Portugueses/USP. Tem realizado pesquisas sobre as literaturas africanas e, em 2005, organizou o livro Diálogos críticos: literatura e sociedade nos países de língua portuguesa.
SÍNTESE DO ESTUDO.
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